Dia desses comi algo meio indigesto e me deu uma queimação daquelas.

Esse tipo de coisa, em meus tempos de molecote, curava-se dando tempo ao tempo. Ou, em casos mais complicados, tomando um copo de água com bicarbonato de sódio.

Acontece que o mundo hoje é uma customização só. Para se comprar um pedaço de queijo num supermercado é preciso fazer um curso de marketing da pausterização no Massachussets Institute of Technology.

Isto sem falar na obrigatoriedade de fazer cada vez mais exames médicos e participar de incontáveis consultas.

Não foi diferente comigo. Queixei-me com a esposa da tal azia persistente. No dia seguinte estava num professor-doutor especialista na matéria. A consulta, admito, foi até rápida e indolor. O problema foi a quantidade de exames que o esculápio me prescreveu. Havia naquela resma de papéis timbrados investigação até de órgãos que não possuo no corpo.

Demorei uns dez dias para voltar à sua mesa. O médico então estudou demoradamente aqueles números e gráficos.  Coçou o queixo e deu o diagnóstico:

– Glúten. O senhor tem restrição ao glúten.

Veio a dieta. Descobri, pasmo, que esse ingrediente existe em quase tudo que repousa sobre a face do planeta Terra. Só não tem glúten em jiló. Mas jiló é a única coisa que não como. Ou seja, fiquei sem opções na hora de me alimentar.

Obviamente comecei a enfraquecer. Uma astenia tão grande que podia apanhar de um seguidor de Mahatma Gandhi. Logo veio a anemia e a esposa decidiu me apresentar a outro especialista. Mais uma batelada de exames clínicos.  Tudo para, dia depois, ouvir dele:

– Além da restrição ao glúten, encontrei num dos exames alergia à lactose.

Sai do consultório me perguntando o que comeria dali em diante. Jiló com jiló?

Nem preciso dizer que fui obrigado a ingerir o ingerível.  O bom é que voltei a ganhar uma pele corada, a anemia foi-se embora. Contudo, o objetivo de toda a minha “tour de force” não melhorava: a queimação virara um incêndio.

Liguei ao especialista pedindo novas instruções.

– A doença celíaca me parece contida, disse ele. A intolerância à lactose idem. Vou pedir mais um examezinho só. Faça e me mande o link do resultado, retorno por e-mail.

Outro jejum, outra picada. Link enviado, resposta dada:

– Mantenha a dieta que prescrevi. Além disso, corte açúcares, gorduras, bebidas alcoólicas, diminua o sal e exercite-se sete dias por semana.

A leitura daquilo, numa fria mensagem eletrônica, me deixou absolutamente melancólico. Pior: aumentou a azia.

Foi então que cometi um ato desesperado.  Sai à rua meio sem destino. Entrei na primeira padaria, pedi pão francês com pernil acebolado e uma Fanta Uva.De litro.

Gostei. Pedi outro sanduba daqueles e um pouco mais de Fanta.

Voltei à calçada. Quando vi que estava só dei um arroto daqueles de quebrar vidraça de carro forte blindado.

Nunca mais tive uma queimação na vida.