Tokaji, Sirah, Canônico, tudo para harmonizar com qualquer bate-boca.

(Foto: Carlos Castelo)

BATE-BOCA SOBRE POLÍTICA: TOKAJI

A polarização é cada vez mais presente na mesa do brasileiro: na mesa da ceia de Natal, do Réveillon, nos bares e restaurantes. E, nessas ocasiões, pode haver vinho sendo consumido pelas partes em guerra. Por isso, a nossa tentativa aqui de indicar a bebida certa para cada gênero de pugilato.

Na maioria dos casos, o bate-boca sobre temas políticos acarreta apenas troca de insultos e palavrões. Somente aqui ou ali há um embate físico mais digno de nota. Logo, o calor da ocasião não pede uma bebida de graduação alcoólica muito potente.

A recomendação, portanto, cairia num Tokaji. Em especial, o Tokaji Eszencia: uma raridade húngara feita dos bagos de aszú. O Eszencia é um néctar com uma concentração de açúcar comparável à do mel, o que abrandaria rapidamente qualquer conflito deflagrado por opiniões extremadas de direita, esquerda, centro e até anárquicos. 

DISCUSSÃO SOBRE SEXUALIDADE EM FAMÍLIA: SIRAH.

Apesar de todas os avanços da sociedade no sentido de incluir, ainda existe um tabu considerável acerca da sexualidade. No momento, por exemplo, em que um filho ou filha comunica sua real preferência aos pais infelizmente ainda podem haver consideráveis desacordos. E, alguns deles, às vezes ganham contornos de violência inesperados. Para situações assim é interessante harmonizar a intriga com um Sirah. Ela é uma uva tinta de vermelho exuberante e intenso, denotando bons taninos. Seus vinhos podem ir de robustos a suaves, de exóticos a simples, bastante envelhecidos a jovens, mas todos com sabores emblemáticos e opulentos. Além de casarem bem com rusgas ricas em ressentimentos leves, pranto ou palpitações cardíacas.

BRIGAS RELIGIOSAS: VINHO CANÔNICO

Evangélicos versus umbandistas, judeus contra muçulmanos, budistas vesus hinduístas, cristãos contra protestantes. Sem dúvida, a Terceira Guerra começará de um destes conflitos. O que não que dizer que não possamos pedir uma trégua, entre uma bomba e uma granada, para harmonizá-los todos com uma taça de vinho. E o melhor e mais metafísico de todos para a ocasião é o vinho canônico, a.k.a vinho de missa.

Inclusive, por que não contendo álcool, minimiza as paixões. Depois de uma degustação calma e solidária entre os litigantes, voltariam normalmente os conflitos e atentados entre eles. Contudo, se por acaso, o membro de uma religião, que não a católica apostólica romana, discordar da ingestão de vinho, pode-se beber alternativamente um bom suco de uva integral.

Não recomenda-se trocar o vinho pelo sangue de pessoas consideradas infiéis.

QUEBRA-PAU EM ESTÁDIO DE FUTEBOL: CASCOS

A combinação em questão é uma das mais delicadas para os enólogos, considerada mais complicada do que a associação entre vinho e sopa. Em meio a uma luta entre torcidas organizadas numa arena ninguém beberá mais nada, até porque já estarão todos completamente bêbados. O foco será agredir o torcedor antagonista com a maior contundência possível. E é aí que o vinho pode entrar no jogo, justamente com seus vasilhames vazios. Combina perfeitamente com o coco de um hooligan selvático.

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