Depois de um poema de Wisława Szymborska.

(Imagem de waldryano por Pixabay)

 

Coisinha mais linda esse Jair!

Na sua roupa de sair aos domingos

Babador branco e bufante

Segurando o cacho de bananas!

Dá vontade de apertar as bochechas até

Deixar o rostinho de bibelô vermelho

(Vermelho não, melhor roxo, roxo)

E quando botam o traje de lenhador?

De uma pureza que faz pensar nos anjos

Coisinha mais sedutora esse infante

Pode-se ver em sua mirada grandes destinações

Mas, por hora, é acompanhar as meninices

O banho de rio, nu como um cupido e suas flechas

O talco que a babá lança sobre a bundinha

Folguedos de soldado no forte apache

Passeios de pangaré imitando general

Tudo com uma falta de malícia de enternecer

Coisinha mais encantadora o cabelo

Negro como a asa da graúna que, um dia,

Pedirá ao papai para caçar de bodoque

Mas, por hora, atenção apenas à ternura

Dos trejeitos e maneiras pueris

As botinhas de couro de vaca, os elásticos,

O olhar prevendo um futuro verde-amarelo

Feito as pencas de banana do sítio

A calça curta que usa sem cuecas

O caminhãozinho construído de bálsamo

(O motor é um barbante desfiado)

Coisinha mais fofa esse Jair!

Posando para a foto no pré-primário

Camisa escolar de um branco virginal

Plaquinha com a data, o nome do Grupo

Sorriso de efebo em jardim grego

Coisinha mais ingênua esse Jair!

E como se encanta com Papai Noel

Manda a cartinha em fins de dezembro

Depois espera – ansioso – querendo saber

Se foi ótimo, bom ou mau menino

Após a missa do galo bate a insônia

Por fim, na árvore, os pacotes vermelhos

(Vermelhos não, melhor azuis, azuis)

Com a espigardinha de rolha, os tanques,

O revolvinho, as balas de plástico,

A minimetralhadora, o fuzil, as faquinhas

Coisinha mais doida esse Jair!