A descrição de imagens e som para pessoas com deficiência visual de um filme incrível.

(Arte: Vinícius Zumpano)

O filme começa com o letreiro: “Um fim de tarde no centro de São Paulo”. Aparecem diversos pedestres, automóveis, ônibus e táxis no momento do rush das 18 horas. Em seguida, um menino olha para o céu e aponta com o dedo para a cima. A mãe, uma senhora rústica, estapeia a mão do filho. Depois insiste que o menino a acompanhe, insinua que vão perder o metrô. Teimoso, ele começa a gritar e a apontar com o dedinho para cima. A senhora retira seu Crocs e começa a espancar a criança. Nesse momento, desce na avenida uma nave intergalática de dimensões gigantescas. A mulher olha para o artefato do outro mundo e fica atônita. Um raio magenta fulmina-a na hora. O menino mira as cinzas da mãe e balbucia que tinha avisado. Os populares ficam aterrorizados. A porta da nave abre-se e descem de lá pequenos marsupiais. Cada um dos animais está trajado com diferentes roupas da era elisabetana. O maiorzinho diz a primeira fala da peça Hamlet, de William Shakespeare:

– Quem está aí?

Um outro ET dialoga com ele :

– Sou eu quem pergunta. Alto, e diz quem vem!

Os populares, ainda mais apavorados, sentam-se diante dos extraterrestres e assistem reverentemente a peça. O celular de um vendedor de pamonhas toca, a nave emana um raio púrpura. Ele e o carrinho viram pó de traque. A montagem da peça shakespeariana está longe de ser ortodoxa. Agora, os marsupiais a transformaram num musical. Dançam e rebolam ao som de cúmbia na cena da caveira e entoam o refrão “ser ou não ser, eis a questão”. Quando algum popular não acompanha a canção com palmas é imediatamente cozido com laser multicolorido. A peça termina. Receosos, todos continuam sentados no chão. Um marsupial vem até a frente da nave. Anuncia que abrirão um debate com o público para avaliar o que apreenderam da exibição. Um dos marsupiais indaga aos presentes se Hamlet poderia ser considerado o primeiro herói moderno ou se ainda estaria, de certo modo, ligado ao teatro arcaico.
Há um silêncio enorme no entorno. Instantes depois, um motoboy toma a palavra. Afirma que prefere música sertaneja. O marsupial-âncora faz um gesto rápido com um de seus três longuíssimos dedos, o motoboy é envolvido numa espécie de teia de aranha e abduzido para o interior da nave.
As questões sobre a encenação continuam por mais uma hora, 187 pessoas são abduzidas para dentro do estranho canudo alienígena. Inclusive, os marronzinhos que chegaram no final da apresentação e tentaram multar o veículo dos ET’s por estar parado em local proibido.
Após a aterrissagem, a performance, a eliminação e a abdução das pessoas ali reunidas, misteriosa e silenciosamente os marsupiais recolhem-se e decolam rumo às nuvens.
Com prudência, os sobreviventes vão se levantando e indo embora.
Nessa hora aparece o centro de São Paulo visto de cima.
Os pedestres, automóveis, ônibus, táxis voltam a circular e tudo é devolvido à rotina normal. Letreiros sobem.