Por uma educação crônica.

(Pixabay)

Uma das belezas da crônica é que tudo pode virar crônica. A falta de assunto, inclusive, é sabidamente pedra de toque para qualquer candidato a cronista sofrível.

Dia desses, resolvi estender ainda mais a flexibilidade do gênero. Pensei: por que não escrever uma crônica sobre cursos que ensinam a escrever crônicas? No terreno semeado por Machado de Assis e João do Rio, tudo é possível. Mas, acho eu, algo dessa natureza jamais fora publicado.

Tive a ideia e logo entrei em contato com a escritora Noemi Jaffe, uma das sócias do Escrevedeira. Era ali onde o poeta e cronista Fabrício Corsaletti reuniria, dias depois, um grupo de interessados em descortinar os mistérios de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues e outros mais.

Noemi imediatamente me abriu as portas da oficina Por Dentro da Crônica. Passei a ser aluno “especial” das palestras.

O nosso grupo era online, numeroso e atuante. Pelo que pude notar havia gente de quase todas as faixas etárias e profissões. De um estudante de Medicina a uma repórter de TV, de uma profissional de Biogeografia a um cronista profissional como eu.

O curso foi dividido em aulas teóricas e em momentos de apreciação. Nestas ocasiões, professor e alunos comentavam sobre os textos que iam sendo engendrados. Para a etapa conceitual recebemos um arquivo reunindo um bom número de autores a serem lidos: Vinicius, Antônio Maria, Drummond, Sabino, Stanislaw, Ivan Lessa. Mas também cronistas contemporâneos como Xico Sá, Ricardo Terto e Gregório Duvivier. Após assimilarmos o material, Corsaletti passou a analisar os tipos de crônica mais frequentes: as humorísticas, líricas e ensaísticas.

Até para um gazetista juramentado como eu, que se dedica à crônica desde as mais priscas eras, foi valioso voltar a assistir aulas sobre o assunto. Quando estamos mergulhados em nossos computadores, redigindo cotidianamente, perdemos a noção do todo. Rever e reler os clássicos, ouvir a opinião dos colegas ao vivo, foi como tomar um banho de cachoeira.

A produção dos alunos também foi bem apreciável. Gente que nunca havia escrito nada ficcional, pessoas que até então eram somente leitores, exibiam ali seus primeiros registros. E, diga-se, a maioria delas dentro das regras da arte e fora da caixa. A sensação é a de que a crônica está, de fato, na corrente sanguínea do brasileiro.

Da escolha dos temas, ao desenvolvimento e à conclusão, apreendi que, além do samba e do futebol, somos definitivamente o celeiro da crônica.

Cabe aqui abrir parênteses sobre a autoestima nacional. Ninguém precisa ser sociólogo para notar que o amor-próprio não é lá nossa maior inclinação. Por isso, ao contrário de exaltarem mais uma reinvenção criada por aqui, a cada dia decresce mais a presença das belas letras no jornalismo. No lugar entram as bobices de sempre. Brevemente, como aconteceu com a bossa nova, Tóquio lerá mais Rubem Braga do que o Rio de Janeiro. Se é que já não lê…

Daí a ideia de uma crônica sobre o ensino de crônicas. Afinal, como já deve ter proclamado algum cronista por aí, para preservar é preciso conhecer.