Adeus, magrela.

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Foto: Carlos Castelo

Prezado ladrão de bicicletas:

Com certeza você – se me permite chamá-lo assim – não saberá quem eu sou. Mas, como recentemente arrombou a porta de nossa garagem, adentrou em nosso domicílio e subtraiu uma bicicleta, tomo a liberdade de não tratá-lo de senhor. Quem entra em nossa morada não carece de formalidades.

Eram cerca de nove da noite de um domingo, estavam três dos meus filhos em casa, mais a namorada de um deles, todos comendo pizza na cozinha. Tomávamos uma cervejinha também, que ninguém é de ferro. Talvez nem fosse lá muito bom para a saúde tanto carboidrato, gorduras e álcool juntos à noite. Mas é o jeito que a gente que trabalha pesado durante a semana acha de compensar as angústias cotidianas.

Foi bem nessa hora que você resolveu nos visitar.

Lembro-me que estava contando a eles um causo divertido da minha juventude, quando a esposa entrou na cozinha com a menorzinha de três anos no colo.

– Nossa, fez um barulhão de coisa metálica lá fora. Não querem dar uma olhada na garagem e no quartos lá em cima?

Paramos de rir. Os dois rapazes foram à rua assuntar. Eu subi até o andar de cima. Dei uma vasculhada geral nos aposentos e não percebi nada de anormal. No entanto, ao abrir a janela do quarto da frente, ouvi a zoada. Todos os vizinhos de pijama no meio da rua, movimentando-se como formigas que acabaram de ter a sua habitação pisada por alguma bota gigantesca.

Desci aos saltos e recebi a notícia de que você tinha dado as caras e levado a minha magrela.

Só um parênteses, dileto ladrão. Parece que os larápios como você adivinham quando a gente começa a gostar de uma coisa, concorda? Pois não é que eu estava me afeiçoando por aquela bike? Faziam já duas semanas que, toda sexta-feira, eu ia ao trabalho com ela ouvindo meu playlist favorito. Dirigi-me à uma estação da CPTM só para cadastrá-la no bicicletário. E mais: estava quase comprando uma cadeirinha para levar a filha pra passear comigo no parque. E aí vocês vêm e visitam a gente. Isso só pode ser premonição. Fecha parênteses.

Como dizia, estava feito o quiprocó em frente de casa.

Fiquei tão nervoso vendo o olhar de apreensão da caçulinha e o conversê em volta que me lancei de carro atrás de você. Não para pegar de volta um singelo veículo de duas rodas, mas para tentar lhe dizer o que escrevo agora.

Dizer que existem consequências em tudo o que se causa a outrem. É claro que você não sabe o que é outrem. Muito menos ouviu falar da Teoria do Caos. Aquela hipótese que afirma que o bater das asas de uma borboleta na China causa um furacão no Caribe.

Tudo bem, sem problema. Só queria mesmo lhe falar algumas coisas pessoalmente. De trabalhador para mão-leve.

Pode ficar com a minha bicicleta, utilizá-la talvez até para afanar outras em nossas ciclofaixas sem iluminação e policiamento. Pode meter um pé de cabra em meu portão, um grifo no meu cadeado, tocar o terror.

Mas uma coisa lhe garanto, considerado gatuno, a minha magrela nunca vai ser feliz com você como era comigo.

Estou certo que ela era do tipo que queria um cara que lhe proporcionasse uma vida familiar. Não um timorato que vai lhe jogar numa vida de delinquência.

Apesar de tudo, não lhe desejo mal. Acredito naquela máxima de que nunca é demasiado ser humano.

Só que, se resolver me procurar, por favor, da próxima vez comporte-se como um homem e toque a campainha.