De como me tornei um engolidor de malaguetas.

pizza

Pitz. Era assim que meus pais pronunciavam ‘pizza’ quando chegaram em São Paulo direto do Piauí. Ficamos uns seis meses comendo a culinária do Meio Norte até que meu pai trouxe uma redonda de calabresa pra casa.

– Como é que come essa pitz, meu bem? – indagou a mãe.

– E eu lá sei – disse papai. E completou:

– Corta e bota um pedaço pro povo com arroz, feijão e verdura. Ruim não vai ficar.

Almoçamos a mistura e aprovamos.

No fim do ano, compadre Vieira chegou de Codó e se hospedou conosco.

– Rapaz, tô doido pra experimentar essa tal de pitz dos paulistas! – revelou ele.

Em meia hora chegou uma meia portuguesa, meia romana. Na sequência foi incorporado o arroz, o feijão e a verdura aos pedaços da iguaria napolitana. Compadre Vieira lambeu os beiços. Ao pegar o segundo pedaço pediu pra minha avó:

– Dona Alzira, me dê um bocadinho de farinha e a pimenta a mó de eu avivar essa tal de pitz…

Almoçamos a novidade enfarinhada, apimentada e aprovamos. Pitz, pra mim, só virou pizza quando me socializei com os coleguinhas do primário. Cheguei a comer até com pirão.

Uma outra especificidade proveniente de minha origem meio-nortista é a grande capacidade de ingerir pimentas de qualquer tipo e origem. O condimento é tão apreciado no Piauí que influi até em cerimônias religiosas tradicionais do cristianismo. Quando fui batizado, por exemplo, o vigário despejou água em minha nuca, sal em minha boca e enfiou uma malagueta caga-fogo em minha garganta. Bati um recorde. Bebê de colo gritei “Jesus!” na pia batismal e desde então nunca mais enjeitei uma ardidinha.

O almoço de celebração de minha saída do paganismo foi logo à base de vatapá, sarapatel e panelada – tudo devidamente escoltado por uma pimenta de bode.

Passados dez anos dessa ardente festa estávamos vivendo (o verbo não era bem esse) no Sul Maravilha, mais precisamente na rua Fáustolo, Lapa de Baixo.

Cioso de minha educação, meu pai fez enormes sacrifícios para me manter numa escola tradicional. Os genitores de meus coleguinhas eram todos médicos, engenheiros, donos de cartórios, comércios. E eu, uma espécie de descendente do Homem Invisível. Até o dia em que fui à casa de um amigo preparar um trabalho, em dupla, de Biologia.

Quando a mãe dele botou a mesa do almoço, estacionou um vidro de pimenta dedo-de-moça ao meu lado. De modo instintivo abri-o e coloquei algumas gotas sobre a comida.

– Vou trocar o seu pratinho, isso não é pra criança – explicou ela, docemente.

Em vez de lhe devolver o prato, abri o vidro novamente e engoli uma pimenta inteira.
Parecia que Dona Rutinha era quem tinha traçado a baga. Ficou rubra, a ponto de termos que abaná-la.

– Chama teu pai, Artur, esse menino vai morrer aqui em casa! – gritou ela, em pânico, para meu parça.

Foi um furdunço imenso. Mas, como até ardor de pimenta mexicana uma hora passa, semanas depois eu estava fazendo pequenos shows em aniversários de crianças. E recebendo uma graninha pelo entretenimento. Como engolidor de pimenta paguei uma viagem a Disney World e o tratamento de artrite da madrinha Yvette.

Pimenta, pros outros, pode não ser refresco. Mas, pra mim, pagou muito milk shake.