“El bacilo es el gigante más pequeño y más feroz.” – Ramón Gómez de la Serna

(Foto: Carlos Castelo)

Não é que eu desgoste das coisas à minha volta. Adoro muitas delas, tipo o Sol, a Lua, os oceanos, montanhas, florestas. Para mim, na real, o que atrapalha são as pequenas coisas da vida. Deve ser por isso que existe o ditado “o diabo está nos detalhes”.

Veja-se, por exemplo, a questão do supermercado. Você encontra-se ali, focado em seu abastecimento doméstico, apanha um produto qualquer na prateleira e ele está inteiro melecado. Se for um produto comum, ainda vai. Mas e se for uma caixa de ovos? Uma embalagem de Cândida? (se forem as duas, ao mesmo tempo, será difícil explicar a textura e o odor de sêmen na palma da sua mão).

Vai me dizer que isso não lhe tira do eixo? Pois são as tais pequenezas que odeio em nossa existência. E elas são centenas, talvez milhares a me tirar do prumo.

O indivíduo adentrar num prosaico box para sua ducha diária já pode lhe trazer carradas de diminutos desgostos. Ao ligar o chuveiro, ele pode resolver, bem na sua vez, não esquentar. Ao querer se ensaboar pode haver apenas um toquinho, um quase resíduo de sabonete à disposição. E mais nenhuma barra em qualquer dos armários da residência.

Após o banho, não haver uma toalha ao alcance de nós outros, é mais um aborrecimento. Isso sem citar coisas mais sérias, como o cidadão ir procurar a tal toalha lá em seu closet, escorregar e quebrar os quartos no chão.

Parece que quanto mais micro são as pequenezas, mais gigantescas são. Por exemplo, aquele reloginho de computador lento – girando, girando, girando. Tem coisa mais aflitiva? Computador, aliás, é um festival de elementos desencadeadores de irritação. Já entrou num determinado site e o cadastramento pediu para você clicar onde estão umas fachadas de lojas, caminhões, carros, pontes? Aí, depois da sua nona tentativa, surgem as letrinhas tortas e ilegíveis… Duvido que alguém acerte o maldito do ‘captcha’ de primeira. Vai ser preciso clicar no botãozinho do áudio, que normalmente tem um sotaque ainda mais incompreensível. É de deixar doente, não é?

E não para por aí. No escritório, você vai imprimir um arquivo e, ao ir buscá-lo na impressora (a vários metros de sua mesa), sempre já acabou o papel ou o toner. 

Vai-se pra casa tentando relaxar no caminho. Mas o trem atrasa regularmente e sem motivo aparente: não há uma greve, um acidente de grandes proporções, o tempo está firme. Trem que atrasa, ainda mais sem justificativa, não adianta.

Chegando ao elevador do seu prédio, você é recebido por uma criança. Seria meigo, se ela não estivesse encatarrada. Ninguém merece criança encatarrada. Não é nada grave, é algo até muito insignificante perto de outros dilemas. Entretanto, como já disse, o lado ruim da vida é o acúmulo dessas ínfimas chateações.

No meu caso, para exorcizar os minúsculos fatos, como o do contato com ranho infantil, tenho um ritual. Lavo a mão verde-muco com calma, pego o bloco e começo a escrever uma crônica como esta. Aí a caneta falha… Pqp, como eu odeio caneta que falha!