Uma seresta em homenagem aos 464 anos de São Paulo.

(Foto: VisualHunt)

Eu fui fazer
Uma seresta pra Ceição
Que mora lá na São João
E então notei
Que os decibéis nessa avenida
Encobrem meu som de saída
Mas insisti
E, às duas horas da manhã,
O Regional do Jaçanã
Descia em frente ao “Bar do Jeca”
(e o barulho ali reinava feito a breca)

Quando eu cantava
Um “Chão de Estrelas” esgoelado
Vi meu bolso ser roçado
Por um ladrão
Que aproveitou nossa seresta
E resolveu fazer a festa
Levou pandeiro
Levou cuíca e violão
E não sobrou pra condução
Um só vintém sobrevivente
(faltou tão pouco pra virarmos indigentes)

Desiludido
Fui procurar policiamento
Que, como sempre,
Foi-nos pedindo documento
Apresentamos
Carteira da ordem musical
Fomos levados
Num camburão pra Seccional
Um trombadinha
Anda de carteira assinada
Mas, músico de madrugada,
Padece mais do que ladrão
(ai quem me dera nessa hora ter patrão!)

Lá no Distrito
Entre uns abraços, cafezinhos
Tantas provas de carinho
Nós confessamos
Ser ladrões de botequim
Estupradores, tudo enfim
E, em meia hora,
As manchetes policias
Davam em letras garrafais
A nossa confissão forjada:
“UM REGIONAL ASSALTA BAR E A BALCONISTA É DEFLORADA”

O réu primário
Que tem bom comportamento
Sai da jaula em pouco tempo
E mesmo antes
Que o escândalo fosse esquecido
A nossa pena foi cumprida
Longe das grades
O que vale é comemorar
Lá na São João, no mesmo bar,
Fazendo as pazes com o passado
(é o pensamento de quem foi anistiado)

Mas a memória
Da cidade entornou fosfato
Guardou pra sempre
Com preconceito o nosso ato
Pois ao entrarmos
Descontraídos no boteco
O povo todo
Foi nos descendo peteleco
Essa história
De seresta e encantamento
Fo se acabar num linchamento
Noutra manchete de emoção:
“CENA DE SANGUE NUM BAR DA AVENIDA SÃO JOÃO”