A bruta esbórnia é finalmente reconhecida.

(Capa de Marcelo Maia)

No dia 10 de setembro, o grupo musical Língua de Trapo participou do oitavo episódio da série Outras Vanguardas. A entrevista e o show foram uma iniciativa da plataforma CulturaEmCasa, um programa de difusão cultural da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do governo do estado de São Paulo.

Para celebrar os 100 anos da Semana de Arte Moderna de 1922, Outras Vanguardas está apresentando artistas pioneiros, de diferentes gerações, que, por serem disruptivos em suas linguagens, guardam relação direta com os propósitos da Semana e a expressão contemporânea do pensamento modernista. Entre eles estão Arrigo Barnabé, Banda Isca de Polícia, Cida Moreira, Premê e tantos outros.

Falando como compositor de algumas das canções do Língua de Trapo foi um momento importante assistir ao grupo nesse evento cultural. Isto porque muito do que produzi para o conjunto tem uma ligação importante com o Modernismo brasileiro.

No ensaio “Tradição e talento individual”, T.S. Elliot afirma:

“Nenhum poeta, nenhum artista, tem sua significação completa sozinho. Seu significado e a apreciação que dele fazemos constituem a apreciação de sua relação com os poetas e os artistas mortos”.

Uma das minhas principais interlocuções, como letrista, foi com o poeta pré-modernista Alexandre Ribeiro Marcondes Machado, o Juó Bananére. Autor de “La Divina Increnca”, escrito em versos italianados e macarrônicos como estes:

“Che sbornia, che pagodêra,

Che pandiga, che arrelia,

A genti sempre afazia

Nu largo d’Abaxo o Piques.”

O diálogo com sua poética foi o que me levou a escrever “Concheta”.

Em seguida veio Oswald de Andrade – com seus poemas-piada, o estilo paródico, a intertextualidade. Quem não se lembra do Canto de Regresso à Pátria cotejando Canção do Exílio, de Gonçalves Dias?

“Não permita Deus que eu morra

Sem que volte pra São Paulo

Sem que veja a Rua 15

E o progresso de São Paulo”

 O contato me contaminou levando a Xingu Disco, Country os Brancos, Como é bom ser punk, Os Metaleiros Também Amam. Quando algumas dessas canções não iam para a paródia no conteúdo, iam para a forma.

É sabido que certos críticos, e até compositores ligados à Vanguarda Paulista, ainda enxergam o Língua de Trapo como uma banda engraçada, escrachada, mas de pouco rigor musical. Mas nunca foi assim. Basta ouvir as vozes com as quais dialogávamos. Sabíamos onde pisávamos e o terreno havia sido aplainado por Noel, Moreira da Silva, Adoniran, Vanzolini, Jorge Veiga, Germano Mathias, Zappa, Les Luthiers, rock ‘n’roll, blues, bossa nova, iê-iê-iê, brega, etc e tal.

A participação no CulturaEmCasa faz justiça ao Língua de Trapo e principalmente ao humor musical – que não precisa de arranjos de Luciano Berio, nem do sprechgesang de Schönberg, para ser considerado uma estética com o mesmo valor das outras vanguardas.

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