“Das estações, Eu sou a primavera florida…”

(Bhagavad Gita)

(Pixabay)

Vai começar aquela época em que as pessoas suspiram e dizem: “…outubro, nossa, acabou o ano!”.

Escuto falarem a mesma coisa desde que sou criança. E, no ano seguinte, lá pelo décimo mês, recomeça a mesma constatação coletiva.

Um pião girando na mão de um filósofo não explica a órbita dos planetas. Da mesma maneira, essa repetitiva interjeição não colabora com o fato de 12 meses terminarem em 12 meses. Contudo teimamos em repisá-la, década após década.

Fico me perguntando se, alguma vez, num último trimestre, alguém falou: “…nossa, e o  ano não acaba!”. Sim, por que em toda afirmação pode haver a sua negativa instalada.

Será que em algum ano da antiguidade um ano não acabou? Tipo, chegou no dia 31 de dezembro, e voltou-se para o dia 1º de dezembro? E ficou assim, num eterno retorno indefinidamente: os contadores tentando fechar os balanços, os fazendeiros querendo que os bezerros envelhecessem, os aniversariantes querendo aniversariar…mas o ano não deixava o ano seguinte o substituir.

Pela lógica, não duvido que algo assim tenha ocorrido. Senão por que diríamos nessa época tão surpresos: “nossa, acabou o ano!”. Porque é provável que, num outro século, os povos ficaram presos num mesmo período de tempo por muito tempo. Daí toda a surpresa em perceber que, graças aos céus, não está acontecendo a mesma coisa agora.

É claro, tudo ocorre num nível sutil de consciência. Não há nada científico provando que, sei lá, 1876 tomou pau e ficou, em 1876, por mais quatro semestres. É apenas uma possibilidade.

Enfim, vou parar por aqui e cuidar da vida prática. Estamos em outubro, acabou o ano.

INTOLERÂNCIA AO PÓLEN

Foi num mês de outubro: primavera, cores, abelhas. Para a maioria das pessoas era sair da estação fria e ir para a das flores. Para um alérgico, como eu, era o começo do fim. Polén, para quem sofre de rinite, é o equivalente do antraz.

Numa dessas tardes primaveris fui apresentar uma campanha publicitária. Quando estava contando os comercias de TV aos clientes, notei que na sala de reunião havia um vaso com lindos lírios. E, no meio de suas pétalas, enormes quantidades de pólen. Como diria o Cauby, “jamais espirrei tão lindo assim”.  Foi tão grande a crise de esternutação que a reunião teve de ser adiada.

Dali a uma semana voltamos à empresa. Antes de mostrar as ideias, o diretor de marketing foi dizendo:

– E o Atchim, dos Sete Anões, melhorou da rinite?

Gargalhadas na sala, inclusive minhas. Mas, se o bullying fosse em outubro de 2019, o diretor seria demitido. E ainda teria de fazer bico de Branca de Neve, em parque de diversões, para segurar as pontas do desemprego.