Menos homenagem, mais verba.

Fonte: Arquivo pessoal do autor.

Pode parecer autoelogio. E é mesmo. Digo a vocês com tranquilidade: estou mais de 20 anos adiantado em relação ao Comitê Olímpico Internacional.

Explico minha imodéstia.

Pelos idos do pré-histórico 1994, estive de corpo presente no agora tão propalado e olímpico Parque Nacional Serra da Capivara.

Não sei se já mencionei, mas sou cidadão piauiense. Digamos que um teresinense deportado, já que a seca de 61 obrigou nossa família a emigrar para São Paulo de mala e sem cuia.

Quando meu primogênito fez oito anos decidi levá-lo de encontro às nossas raízes. Aquele tipo de viagem que só agrada a quem propõe e nunca a quem é convidado. No fim prevaleceu a vontade paterna.

Visitamos parentes em Teresina, Floriano e, meio por acaso, no final decidi mudar um pouco a trajetória indo até São Raimundo Nonato.

A Serra da Capivara, com suas trilhas, cânions e pinturas rupestres poderia dar um tom mais Indiana Jones à nossa enfadonha peregrinação por casas de tias, comadres e madrinhas, fato que entediava mortalmente o garoto.

A estratégia deu certo. O filho, à época muito interessado em fazer sketches à lápis, adorou as antiquíssimas pinturas e as copiava num caderninho.

Quando íamos embora decidi deixar uma dessas cópias de presente ao Museu do Homem Americano. Coisas de pai excessivamente coruja.

Toquei a campainha e, para meu pasmo, apresentou-se a doutora Niéde Guidon.

“Estou com o reitor da universidade de Tóquio e um morador de São Raimundo, sente conosco, quero ver o desenho do menino – convidou a arqueóloga com lhaneza.”

Durante meia hora, ela conversou com o japonês em inglês, com o local (que deixara uma vaca entrar na área tombada) em piauiês e com a gente em Português do Brasil.

Terminado o encontro internacional fiquei a sós com ela e o menino. Disse-lhe:

“Sou publicitário em São Paulo. Nunca realizei nada pelo lugar onde nasci. O que posso fazer pela Serra da Capivara?”

Niéde me solicitou um folheto. Para vender a ideia à UNESCO de que aquele local, que em 94 já era patrimônio da humanidade, deveria urgentemente receber uma verba de manutenção.

Voltei à base e fiz mais que uma folhetaria, produzi um comercial (em anexo, numa versão mais recente). Em seguida instrui a doutora a exibi-lo na reunião com as Nações Unidas, em Nova Iorque, como a forma mais simples e direta de mostrar a importância do sítio arqueológico brasileiro.

Alguns meses depois, a Fundação do Homem Americano recebeu a dotação que garantiu sua subsistência por um longo período.

Para mim foi a prova de que a Publicidade pode ir muito além de vender sabão em pó. Para a doutora, a tranquilidade de continuar suas pesquisas sem se preocupar em pagar o 13º de seus guarda-guaritas.

Hoje, mais de 20 anos depois, o Parque volta às manchetes por ter sido lembrado no grandioso encerramento olímpico.

Galardões não são novidade. Caetano Veloso usou imagens de lá em um de seus discos e em shows e não sei se as remunerou. Tudo vira panegírico, nada se transforma em capital de giro.

Niéde Guidon, cansada de guerra, afirmou abrir mão de homenagens, trocando-as por numerário para a Serra.

Fez-me recordar outro grande herói nacional, Adoniran Barbosa. Quando lhe informaram que sua Trem das Onze era o samba mais executado do Rio, no ano do quarto centenário da cidade, desabafou: “prefiro minha parte em dinheiro.”