Foi levantando os olhos cada vez mais até focar a imagem esfumaçada. Lá estava Jandira desnuda em frente ao espelho.

(Arte: Vinícius Zumpano)

Ele tinha 13 anos e morava num prédio na Lapa de baixo. O lugar não era dos melhores, tinha mais ratazanas que condôminos. Os pais, fugidos da seca do Meio Norte, conseguiram residir naquele muquifo a duras penas. O dono do imóvel vinha pessoalmente cobrar o aluguel e ai de quem atrasasse. Dava-se mais uma chance e, no segundo atraso, era pontapé para a calçada.

Mas para o garoto havia um respiro. O único banheiro do apartamento tinha um vitrô que dava para o banheiro do 31. Um dia, no banho, ele ouviu o ruído do chuveiro contíguo e se ligou numa possibilidade.

Dois dias depois tomou coragem. Com toda certeza quem estaria no box seria Jandira, a filha única de dona Conceição e seu Manoel. A garota já devia ter os seus 18 anos e seria um divertimento melhor do que caçar catitas vê-la, em pêlo, durante a toalete.

Entrou no banheiro, manteve a luz apagada e botou sorrateiramente os pés na pia, depois no registro para poder alcançar o vitrô. Procurou segurar a respiração, mesmo com o coração batendo mais que a bateria do Keith Moon em My Generation.

Foi levantando os olhos cada vez mais até focar a imagem esfumaçada. Lá estava Jandira desnuda em frente ao espelho. Ela olhava-se no fundo dos olhos, virava o pescoço, ora para a direita, ora para esquerda, como querendo achar alguma imperfeição naquelas faces quase tão brancas quanto a tampa da privada Celite.

Os peitos de Jandira eram um aclive, como dava para notar quando usava camisetas justas. Mas, nus, ainda ficavam no mesmo ângulo de quando presos pelo sutiã. A bunda era tesa, insinuante – e os pelinhos do púbis, loiros, como as das coxas retumbantes. Ele ficou ali, o músculo cardíaco reverberando na aorta, enquanto Jandira banhava-se nas águas da ingenuidade.

Muitos anos depois, lembrou-se desse tempo, num tempo diverso. Formara-se, alugara seu apartamento no Alto da Lapa e comprara um automóvel. Terminara um longo noivado com Soraia, uma chata dos tempos da faculdade, e resolvera viver apenas de bares, viagens, amizades e eventuais flertes.

Num desses botequins da zona oeste, em certa noite de abril, bebia seu chope na companhia de três amigos da empresa, quando notou uma guapa mirando-o com aquele olhar de quem quer olhar.
Devolveu-lhe os dois olhos e ficaram naquela conversa óptica que só os enamorados sabem ter com suas pupilas e cristalinos.

A bela estava acompanha de outras bem-apessoadas e deu a entender que ficava difícil se conhecerem ali no salão. Os tempos eram outros, tão diferentes dos da Lapa de Baixo, e foi ela quem tomou a iniciativa. Apontou com uma das sobrancelhas para os mictórios.

Ele desceu um gole de Brahma quente e disse aos colegas que ia tirar água do joelho. Quando entrou no WC percebeu o vitrô. E logo depois ouviu a voz da garota:

– Eu vou subir na pia, depois no registro. Pulo aí e volto pro meu banheiro em seguida, beleza?

Quem iria se recusar? A guapa iniciou a movimentação. Logo que subiu na pia, veio o estrondo.

– O que houve? Ei, diz alguma coisa! – repetia ele, aturdido.

Só se ouviam fracos gemidos.

Ele saiu desnorteado para o salão. Um garçom já estava com a moça nos ombros, a testa dela rubra feito um maço de Hollywood.

Na mesa, um dos colegas informou:

– Enquanto você foi mijar aquela mulher se machucou no banheiro…

Ele acendeu um cigarro, tragou fundo, e disse, cheio de si:

– Aquela mulher tentou passar pro meu banheiro, pelo vitrô, e caiu da pia…

No ato, todos começaram a desacreditar dele e a gargalhar, empurrando-o. Um dos rapazes berrou para o garçom:

– Ô, Jairo! Traz um chope aqui pro George Clooney da Lapa!