Lições que vêm da vida animal.

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Foto: Carlos Castelo

O mundo sempre se dividiu entre os que amam os cães e os que veneram os gatos. Há um número de pessoas que cultuam os pássaros, os quelônios e até os porcinos, mas é um contigente bem menor.

Sempre fui fã de cachorros. Ganhei uma collie aos 13 anos, chamava-se Cibele.

Prometi aos meus pais que cuidaria bem dela. Era preciso não deixá-la fazer necessidades dentro do sobrado, escová-la, fazer passeios e ministrar as suas cápsulas de levedo de cerveja (para o brilho do pelo) ao menos uma vez ao dia.

Esse comprometimento com aquela cadela ajudou a formar meu caráter.

Foi assim com os outros totós que tive. O pastor alemão Tom, o dinamarquês Dixie, o boxer Dino, o scotch terrier Dali e o fox paulistinha Catatau, entre muitos outros.

Mas os collies parece que me ensinaram mais. Eike passou uma vida inteira com a família e, como muitos de nós, ao final da existência teve complicações sérias de saúde. Coube a mim tratar dele nesse estágio árduo da caminhada. Durante uns bons dois meses tive que alimentá-lo com pedacinhos de ração umedecida, colocados direto na goela. O velho amigo já não conseguia mais deglutir.

Depois que se foi passei um tempo considerável sem cães.

Foi quando apareceu uma gata em casa. Por alguma razão decidiu adotar a residência como sua e eu como seu súdito. Só após uns dias entendi o enigma: ela estava prenhe.

Deixei que fosse ficando. Passadas algumas semanas acordei de madrugada com a Gata Sem Nome aos berros. Ao chegar em seu canto vi três gatinhos no chão. E um branquelo querendo nascer e meio entalado. Em vez de estar com a cabeça para fora estava com as patas.

Assustado, me aproximei da desesperada parturiente fiz-lhe um carinho rápido e puxei com suavidade o improvável filhote para o mundo.

Pela iconoclastia chamei-o de Zappa.

Os três irmãos foram doados a amigos, Sem Nome sumiu, restou-me a companhia do autor de Joe’s Garage.

Zappa acabou me ensinando bastante sobre o mundo dos felinos. Um episódio ilustra bem o que afirmo.

Sempre mantive uma coleção de pimentas distribuídas em prateleiras sobre o fogão da cozinha. Uma tarde de domingo ouvi um grande alarido de vidros se espatifando. A curiosidade, é sabido, mata o gato. O bichano não resistira ao apelo visual e tinha ido meter seu focinho nas garrafeiras nordestinas.

Ao adentrar no ambiente, a sensação foi a de ser atingido em cheio por uma bomba suja. Na hora os olhos já marejaram e, quando consegui focar, vi uma bola de pelos ácida e encarnada em cima da pia: era Zappa.

Tremia o pobre bicho. Se colocassem sal, dendê e coentro por cima poderia muito bem virar um guisado à soteropolitana.

Peguei-o logo no colo e metemo-nos no box.

Pois é, apesar de nossa estreita convivência, eu ainda não era um expert em gatos. Quando abri o registro e a água sobreveio, o meu ex-amigo, à maneira de um Wolverine, soltou suas garras e me unhou fundo no peito.

Em seguida, feito um raio, enfiou-se na janelinha e partiu para nunca mais voltar.

Até então esse foi meu último relacionamento com animais da sua espécie.

De uns tempos para cá voltou o desejo de ter um cachorro para chamar de meu. Mas, após uma certa idade, a vontade dos descendentes prevalece. A caçula bateu o pé: queria, porque queria, uma gata.

Ontem chegou Lili.

Já providenciei a retirada de todos as embalagens de malagueta da casa.