Havia um cronista que odiava autopromoção.

(Divulgação Editora Urutau)

Havia um cronista que, às vezes, escrevia poemas. Hoje, inclusive, ele lançará um livro com seus versos. Só que o cronista achava cabotino falar de si. Convocar leitores, em sua própria coluna, para aparecerem em sua noite de autógrafos. Dizer coisas do tipo “apareçam lá, mesmo que não seja para comprar a obra, quero lhes abraçar depois de tanto tempo de isolamento social”. Na opinião dele, ficaria chato. Não porque não desejasse uma multidão presente na Livraria Mandarina, a partir das 18 horas. Antes, pelo contrário. É que a autopromoção o incomodava. Então, tomou uma decisão. Reproduziu a orelha de Palavrório, escrita por Leonardo Gandolfi, em seu espaço no Estadão. Entretanto, apesar de que não diria isso a ninguém, o cronista, se não fosse o cronista, compraria seu próprio livro de poemas. Para ele, Palavrório é uma ótima seleção poética, capa linda, e tudo o mais. Mas fica só entre nós para não o constranger. Daqui para frente é com o Gandolfi.

“Carlos Castelo foi um dos integrantes da banda Língua de Trapo, compositor de várias canções, entre elas, “Como é bom ser punk”, que emulava algo como um canto gregoriano mas com letra que, entre outras coisas, dizia: “Como é bom ser punk/A mãe degolar/E a vovozinha/No varal pendurar”; e que terminava assim: “Só uma coisa me dói/É esperar o apocalipse/Tendo que ser office boy”. O ano era 1985 e, apesar de estarmos nos estertores da ditadura civil-militar, a música, ao lado de outras da banda, foi censurada. O caráter subversivo das canções do grupo, mais do que vir de um posicionamento de denúncia, vinha de um humor paródico que não perdoava nenhum gênero musical, nem perdoava o que esses gêneros representavam, profanando assim uma ideia de acervo. O que por certo incomoda muito os discursos de poder, porque tais discursos não admitem que as coisas mudem de lugar, ainda mais as coisas que os representam e, portanto, os sustentam. Essa longa introdução para dizer que este formidável Palavrório, embora distinto no tom das canções do Língua de Trapo, traz também uma força que mobiliza um grande acervo, deslocando-o radicalmente por meio do humor corrosivo ou, antes, por meio da maquinaria da paródia. Isso torna mais vivo aquilo que chamamos de tradição, justamente por entrar em atrito com ela, friccioná-la até tirá-la do lugar, isto é, tirá-la do pedestal. Um rápido percurso por estas páginas já revela que Carlos Castelo aciona uma salutar máquina de ler e de deslocar com o riso. Na primeira sequência, o famoso poema de Gonçalves Dias joga futebol, ou melhor, o futebol joga com ele. Depois, a célebre frase de Adorno sobre o fim da poesia vai parar numa blitz policial. E só para ficar nas páginas iniciais, lá vai: Poe, Gregório de Matos, James Joyce, Chico Alvim, Augusto de Campos. Todos em uma conversa direta com Carlos. Literatura — modo de usá-la para si que o poeta divide conosco. Literatura — modo de rir e, sobretudo, modo de rir de si. Porque, apesar de Carlos rir desses autores com eles, o maior alvo do humor mordaz, aqui, é ele mesmo, isto é, a sua figura como poeta. Nesse sentido, é impagável a reescrita autoderrisória que o autor faz de outro Carlos: “Carlos Drummond? — o anjo indagou/Expliquei-lhe que era Castelo/O anjo saiu voando e aconselhando:/Vai, Carlos, ser qualquer coisa na vida/poeta já tem coisa melhor”. Como é bom rir de si e da poesia, mas sem perder a ternura.”