Quem coloca a bunda em Caras não coloca a cara em Bundas

(Foto: arquivo de Carlos Castelo)

Ficar sabendo que, até o fim do ano, todo ‘O Pasquim’ será digitalizado e disponibilizado no site da Biblioteca Nacional foi a madeleine.

Vieram aquelas centenas de lembranças, manchetes e sacanagens das minhas auroras inaugurais.

Numa família de militares, advogados e padres pedir ao pai uma assinatura daquela gazeta era mais do que um ato precoce, era um gesto que beirava o desrespeitoso.

Minha sorte é que o seu Oswaldo havia sido arrimo de família muito cedo. Privou-se de escrever suas histórias para ter no primogênito uma chance de participar do mundo escrachado do rato Sig et caterva.

Ah, mas que pai bom: ganhei logo uma assinatura anual. Toda semana chegava no sobrado do Sumarezinho, metido na fresta da porta da garagem, aquele jornaleco cinzento e cheio de novas expressões idiomáticas para o deleite do adolescente espinhento.

Eu sempre começava pelas entrevistas, claro, por causa dos palavrões. Os olhos corriam os asteriscos que traziam, no subtexto, um mundo de possibilidades nas opiniões de Leila, Chico, Dina, Tostão, Madame Satã. Depois, as tirinhas de Henfil, Ziraldo, Jaguar. E então, por último, para saborear melhor, aquilo que acabou me influenciado até hoje: o Gip! Gip! Nheco! Nheco!, de Ivan Lessa, e os aforismos do Dirceu.

Pois é, o meu herói no Pasca era Dirceu Alves Ferreira, o mineirim de Araxá. Segundo Ziraldo, Dirceu “começou nas páginas do Pasquim, muito antes de nós inaugurarmos ali, na página dois, a nossa seção de ‘Picles’. Colabora com a imprensa de Belo Horizonte e, mesmo sem publicar, faz mais de 100 frases por dia.”

100 frases por dia! Poutz, eu mal fazia uma, talvez duas que davam pro gasto. Será que um dia escreveria minhas próprias citações naquele ritmo e concisão? Era o que matutava enquanto folheava o meu jornalzinho sarcástico.

O fato é que – e os mais próximos sabem disso – acabei seguindo pela senda humorística. E, quando dei por mim, estava produzindo meu próprio material num site tocado por Ziraldo e Zélio que viraria a revista Bundas (“quem coloca a bunda em Caras não coloca a cara em Bundas”).

Bundas infelizmente durou pouco. Creio que encerrou os trabalhos ainda em 1999. Só que depois pintou O Pasquim 21 – e lá estava eu de novo no meio dos pasquineiros.

Tudo isto é para dizer que estou felicíssimo em saber que, após 50 anos, a publicação que tanto me marcou estará acessível aos stand up comedians e a outros bobos da corte hodiernos. Será uma ótima oportunidade para perceberem o quanto o nosso passado superou o presente. Pelo menos na qualidade das piadas. Vai, Pasquim!