“A impertinência destes textos vai ficar registrada, para que vejam que, alguns brasileiros, resistiram a este momento difícil.”

(Reprodução)

Mais uma vez uso aqui as palavras de outros para não cair em cabotinismo. Agora, quem escreve é Rogério Galindo, editor do jornal Plural Curitiba. Foi ele que, bem no início do atual governo (sic), me abriu as portas de sua publicação para praticar humor. Durante um ano escrevi semanalmente os verbetes do Dicionaro, o dicionário de bolso. Agora, os textos – revistos e atualizados – viraram livro pela editora Urutau. Fica mais esta iniciativa literária de trazer luz e graça onde há sombra e desgraça.

 

“Minha paixão por frasistas vem de umas férias em que meu pai comprou O Poder de Mau Humor, de Ruy Castro. Meu irmão e eu passamos o verão descobrindo Oscar Wilde, Bernard Shaw, Fran Lebowitz, Nelson Rodrigues, Ambrose Bierce, H.L. Mencken. Estilos diferentes, mas todos cheios de verve e veneno. E, coisa importante no humor: voltados contra o poder.

Muitos anos depois, quando tínhamos acabado de fundar o Plural, no meio deste caos em que o país ainda se encontra, recebi uma mensagem de Carlos Castelo. Confesso que demorei um minuto para unir o nome à pessoa. Aquele publicitário premiado e generoso era o mesmo sujeito que tinha feito minha cabeça com as músicas e letras geniais do Língua de Trapo.

(Até hoje me pego cantando “Um Brasileiro em Paris”: “La politique et la prostitute/Sont tout la même chose/Vejam o exemplo do Miterrand/É socialista, mas só faz pose.” Sem falar no magistral samba-enredo em homenagem à TFP, que fala tanto sobre nosso conservadorismo.)

Carlos se propôs a fazer um diário do governo (sic) nascente na forma de um dicionário de bolso. Nascia o Dicionaro. Durante meses, com uma disciplina impressionante e uma imaginação fértil, ele me enviou e-mails que me deixavam maquiavelicamente sorridente. Eram levas e levas de frases de carpintaria bem-feita e maldade na medida certa.

Claro que o governo (?) facilitou a vida de humoristas e críticos, mas fazer frases sucintas e emblemáticas como estas é coisa arriscada. Trabalho para poucos. Invejoso por um lado, mas orgulhosíssimo por outro, publiquei no Plural todos os textos. Sabia que era importante não só para nós, mas para o país. Não só para o momento, mas para depois.

Agora, quando parece que chega ao fim o reino dessa gente mesquinha e sem graça que tomou Brasília de assalto, recebi a notícia deste livro. E fico duplamente feliz, vendo que a impertinência destes textos vai ficar registrada também em papel, para que daqui a muitos anos vejam que alguns brasileiros resistiram a este momento difícil.

Carlos Castelo resistiu, brilhantemente, com estas armas que aprendi a admirar desde cedo, nele e em outros: a inteligência, o humor fino e a vontade de dar uma surra de palavras em todos aqueles que atravancam o nosso caminho. Boa leitura.”