Uma distopia possível.

(Imagem de photosforyou por Pixabay)

Estavam enclausurados há muito tempo. Depois da sétima onda do ataque bacteriológico, não punham a cara para fora de casa nem para depositar o lixo na calçada. A Ciência ainda não sabia explicar o porquê da potencialização dos efeitos viróticos. No começo, a contaminação parecia bem mais lenta, no entanto, naquele momento a velocidade com que atacava era recorde. E os óbitos cada vez mais numerosos e terríveis.

A comunicação entre as pessoas acontecia somente através de redes sociais ou telefonemas. Todos já estavam acostumados ao fato do virtual ter sobrepujado o presencial, tocava-se a vida adiante como era possível.
Foi então que, numa manhã, começou a pipocar pelos grupos de família a novidade.

– Vocês viram o helicóptero colocando o monumento no centro da cidade?

Alguns já sabiam, outros não, e o fato passou a ser amplamente comentado.

– Falaram que é uma obra de arte gigantesca.
– Arte? Nunca se interessaram por arte.
– Estranho, não?
– Ah, não me assusto com mais nada.

Por muitos dias, o assunto virou trend em todas as redes possíveis e imagináveis. Superou a guerra entre ocidentais e asiáticos, e a enésima tentativa fracassada de encontrar uma vacina contra a cepa mais recente do vírus.

O que intrigava no içamento e instalação do monumento era o silêncio do Governo Central. Normalmente, qualquer ação estatal era muito difundida pelos seus canais. Foi isso que aumentou ainda mais a curiosidade. E também o fato de ninguém ainda ter fotografado o monumento, estátua, ou o que quer que fosse aquilo.

– Será que é do quê? Quero dizer, o material dele.
– Teria que ir lá botar a mão. Mas como, com esse isolamento?
– Deve ser de plástico. Se fosse de metal o helicóptero não dava conta de carregar.
– Talvez…
– Ai, dá medo.
– É, mas não aguento mais, vou ter que ir ao centro ver esse troço.
– Olha, eu não iria, não. Vai saber o que é.
– A gente já está enlouquecido dentro de casa, mais outra coisa agoniando, preciso ver.
– Cara, te cuida. E volta num pedaço só, hein?
– Hahahaha, pode deixar.

Mas não voltou.

Depois de alguns dias, sem informação alguma, a namorada decidiu quebrar a quarentena e ir ver o que ocorrera, tentar ao menos falar com uma autoridade que pudesse dar uma versão mais clara da desaparição.

Cobriu-se de panos, chapéu, máscara de três camadas, ligou o seja o que deus quiser, e mandou-se rumo ao desconhecido.
Nas primeiras horas, a família conseguiu monitorar os passos da filha pelo WhatsApp. Ela comentara que as ruas achavam-se completamente vazias e estava chegando bem próximo ao local do monumento. E teclou:

– Tá me dando um friozinho na barriga, acho vou descobrir tudo que aconteceu.

Foi o último texto que digitou. Nunca mais encontraram nem seus rastros.

O mesmo se daria com dezenas, depois centenas, e muitos milhares que ousaram sair de casa para ver o ícone.

Relataram os pouquíssimos que o encararam, e saíram ilesos, ou os mentirosos, que tratava-se de uma imensa ratoeira. Se era mesmo, a curiosidade matou mais uma vez, mas dessa vez foram os ratos.