Até abril de 2062 – me lembro da data porque fiz 27 anos nesse mês e ano – eu era praticamente ateu. Não sentia necessidade de ter um deus ou de pensar de um modo não-materialista. Dali em diante tudo mudou. Conheci Darlene, namoramos, casamos, ela me apresentou as maravilhas do mundo orgânico e, quando eu estava preparado, me fez conhecer a Metafísica Vegetal.

Minha sorte é que tudo aconteceu suave e gradualmente. Primeiro, ela me desintoxicou. Só que fez isso me dando todo o passo a passo. Me apontando o quanto era importante deixar de lado o Carnismo e adotar uma alimentação mãe-terra.

Passado um bom tempo me introduziu aos jejuns. Dali para a alimentação à base de luz e a visão dos Grandes Vegetais foi um pulo.

Só então Darlene colocou na pauta a Causa Vegetal: mais precisamente os Livros Sagrados do Inominável Repolho.

Foram meses escarafunchando juntos cada parábola, versículo, provérbio. Após todo esse período de iniciação pude me candidatar a Semente. A cerimônia durou mais de duas horas. Depois de ler para o Oficiante-Agricultor um grande trecho do Livro Sagrado, com dicção perfeita e atitude adequada, é que finalmente fui aceito como praticante do Repolhismo.

Entretanto, minha saga pela Causa Vegetal estava apenas começando. Os próximos ciclos lunares passei numa fazenda familiar em algum lugar do Sul do país reverenciando a Bardana. Ao completar a tarefa fui enviado a um sítio, aparentemente em Minas Gerais, para o cultivo de Ora Pro Nobis – o Vegetal-Mãe do Repolhismo, juntamente com o repolho, obviamente.

Promovido à Folha, e logo em seguida, a Caule, passei a propagar a Causa para outros candidatos à Planta.

Darlene e eu residimos praticamente em todos os estados do país e, em alguns momentos, em países vizinhos.

O Repolhismo, assim como nós, também evoluiu muitíssimo nesse período. Em 2062 eram poucas centenas de seguidores, agora somos milhões de Orgânicos.

Hoje foi um dia muito especial. Darlene e eu viemos participar de uma cerimônia monumental em nossa cidade-sede : Laranjal Paulista.

Antes visitamos todos os locais sagrados do lugar. Não deixamos nada de fora – o Campo de Estrume dos Últimos Dias, o Horto da Titica, o Monumento ao Brócolis Desconhecido e a Estátua ao Pai-Adubo.

Recolhido em nossa barraca, num campo de batatas, escrevo tudo isso ainda sob forte emoção. Nunca sairá de minhas retinas, ela e eu, entrando no Templo do Quiabo, todos ali em roupas cerimoniais nos recepcionando: Oficiantes-Agricultores, Mestres-Abobrinhas, Pastores-Maxixe e o Sumo Sacerdote Chicória em seu manto de chia.

Fomos os dois até o Grande Portal Verde, entortamos os pescoços à maneira de uma berinjela e meditamos longamente. Ao levantarmos o tronco, atingíamos nosso grande objetivo existencial: tinhamos virado Vegetais.

Agora, o próximo passo é erradicar os Carnívoros do planeta.