“Não faz aos outros o que desejas que façam a ti. Os gostos deles podem não ser os teus”. George Bernard Shaw.

(Arte: British Library)

Em 1977, o sociólogo, crítico e teórico francês Roland Barthes criou duas listas sagazes e as batizou de J’aime e J’ai n’aime pas (Gosto, Não Gosto). Havia ainda uma terceira chamada Gosto, não gosto em que ele diz que aqueles róis de preferências e não-preferências eram inúteis. Está lá a explicação:

Aqui começa a intimidação do corpo, que obriga os outros a me suportarem liberalmente, a permanecerem calados e educados diante de prazeres ou rejeições dos quais não partilham.

(Uma mosca me incomoda, eu a mato. Você mata o que o incomoda. Se eu não tivesse matado a mosca teria sido por puro liberalismo. Sou liberal para não ser matador).

Resolvi kibar o Barthes e fazer os meus dois inventários próprios. Espero que vocês também sejam liberais comigo (não-xiitas) e não me matem só por causa de minhas idiossincrasias.

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