“Quero a poesia muito mais lasciva / com chulé na língua, suor na saliva”
(Manifesto Obsoneto – Glauco Mattoso)

 

(Pixabay)

O médico alemão, alquimista e precursor da Química, Johann Joachim Becher (1635 – 1682) foi o pai de uma famosa teoria conhecida por pútrida. Segundo ela, “a putrefação constitui um movimento intestino permanente, perpetuamente em luta contra o princípio da coesão natural e inata das partes, fogo elementar que se perpetua graças ao espírito balsâmico do sangue”. Este movimento intestino resultaria da mobilidade das moléculas liberadas dos entraves que as fixavam, e daí o odor fétido e penetrante dos corpos que apodrecem.

Dito assim, através do uso da metodologia científica, parece a descrição de uma água de colônia francesa. Só que, no popular, é bem diferente de um Giorgio Armani. Especialmente para pessoas como eu, muito sensíveis a odores.

Nunca me compararia a um perfumista, todavia, o nariz é meu órgão de choque. Pode-se dizer que, sou o primeiro a espirrar à menção da palavra “pelo de gato”, e o último a assoar as ventas ao entrar num ambiente acarpetado.

Gavetas úmidas, armários fechados, lençóis de hotel, travesseiros de penas de ganso, roupas mofadas – tudo isto é um provável gatilho para a minha suscetibilidade nasal.

Lembrei-me agora, não sei bem a razão, de um triste episódio ligado à putrefação, que se deu comigo no passado. Divido-o com vocês e espero que não o leiam enquanto comem. A dica fica.

Eu ainda trabalhava em redação de jornal. Um editor, que sentava-se perto de mim, tinha o hábito de vir, todo dia, com o mesmo All Star branco. Sem meias.

Todos sabemos que usar tênis, de pés desnudos, por meia hora que seja, já resulta em mobilidade das moléculas liberadas dos entraves que as fixavam. Imagine-se fazer isso com alguma regularidade…

Numa fatídica tarde fomos todos a uma reunião de pauta. Alguns minutos depois de iniciada a conversação, passei a sentir um futum violento. Ao notar a pestilência, a impressão que tive foi a de que estava sendo esbofeteado pelo Cassius Clay. E, por alguns instantes, creio que meu cérebro me fez “sair” do ambiente.

De volta aos eflúvios mal cheirosos, por instinto, comecei a buscar de onde poderia estar vindo a insuportável catinga.

Foi quando mirei a parte de baixo da mesa e vi – o horror! – os pés do editor para fora de seu All Star branco. E o cidadão ainda esfregava os artelhos, uns contra os outros, como se quisesse espalhar o cheirume pela salinha. Pode ter sido uma alucinação visual, mas julguei na hora ter visto uma espécie de miasma flutuando em meio a seus dedões orvalhados.

Não sou uma pessoa religiosa. Mas, naquele momento, até por estar à beira de desengolir meu almoço por sobre os colegas, dei início a uma prece que aprendi, ainda pirralho, com a avó materna: “chagas abertas, corações feridos, sangue de nosso Jesus Cristo, entre nós e os perigos!”

Repetia, suando frio e de olhos fechados, o meu mantra quando ouvi o chefe de reportagem berrar ao fundo do recinto: “Carlos, volta pra sua mesa agora, precisamos urgente de você escrevendo um obituário!”

Nem me lembro mais quem morreu. Mas, com certeza, alguns alvéolos dos meus pulmões também faleceram naquele dia.