“São Vicente é um brasilin / Chei di ligria chei di cor” (Cesária Évora)

 

(Foto: Carlos Castelo)

Tenho uma mania que se repete todo dia primeiro de janeiro. Eu almoço, obviamente ressacado, desenterrando os ossos da noite anterior. Até aí sou igual a todos. Acontece que, mais tarde, não aguento repetir a ceia pela terceira vez. E o comércio está fechado. Começa então a insaciável busca por um restaurante em funcionamento.

Nesse 2022 achei a churrascaria “Sujinho”, da Consolação.

Em respeito aos protocolos pandêmicos, me aboletei numa mesa na calçada. Em poucos minutos já saboreava uma maminha abraseada e, de escolta, aquela salada de repolho que só existe ali.

Na hora do café me abordou um cidadão senegalês chamado Ngore. Seu português era uma áfrica, cheio de veredas e sertões. Mesmo assim conseguimos nos comunicar. Ngore vendia pequenas estátuas de madeira.

Segundo ele, esculpidas por familiares seus em Dacar. Havia figuras de girafas, jaguares, aves. Outras maiores eram imagens de nativos do seu país.

Chamou-me atenção um elefante negro. Sempre associamos esses animais à cor cinza, no entanto, aquela peça ficara invulgar.

Ao notar meu interesse pelo paquiderme, Ngore, que parecia estafado, pediu para se sentar à mesa. Cedi-lhe uma cadeira e pedi ao garçom que o servisse com um expresso.

Começamos a negociar. Os entendimentos foram interrompidos pela chegada do cafezinho. Não querendo atrapalhar o rapaz em seu momento de descontração, parei de falar em valores e me declarei um fã da música de Cabo Verde. Ngore já morara lá. Disse-me, os dentes branquíssimos, em contraste com a noite da cor do elefante:

– Cabo Verde. Cesária é de São Vicente. Conheço Cesária.

Pronto. Havíamos estabelecido um vínculo. O moço tinha proximidade com Cesária Évora, a voz que nunca sai das minhas playlists. Ficamos cantarolando, em plena rua Maceió, mornas de la diva aux pieds nus. Agora era o meu cabo-verdiano que se enchia de sertões e veredas.

Por fim, o senegalês foi bem compreensivo no preço de venda. Mas como pagá-lo? Há tempos não ando com cédulas na carteira.

– Pix! Pix! – anunciou Ngore, e anotou o número do celular num guardanapo.

Depois se foi. E foi feliz por ter realizado uma venda em data tão apática. Ficamos o elefante e eu na mesa.

Mais tarde soube que símbolos daquela natureza são conhecidos por atrair boa sorte. Vem da mitologia indiana, onde o elefante é considerado um Deus. Recomenda-se tê-lo em casa com a tromba para cima, pois assim dispersa a energia da boa sorte e da fortuna pelo ambiente.

O elefantezinho de Ngore já está em local central da casa. Que 2022 nos surpreenda positivamente. Tal qual a confluência entre o piauiense e o senegalês num início de ano.