cronica-por-quilo.jpg

Senhoras e senhores:

Originalmente não fui convidado a participar desta edição da Flip. Nem da anterior – ou mesmo da anterior da anterior.

Costumo me apresentar a quem não me conhece como um escritor célebre e desconhecido. Célebre porque todos os meus 17 leitores, em sua totalidade da minha família, acham que sou uma espécie de S.J. Perelman nascido no Piauí. Desconhecido porque quem não vem a Paraty não é lembrado, mesmo se tiver escrito uma versão da A Divina Comédia em métrica de hip hop.

Nesse momento imagino que as senhoras e senhores devam estar se perguntando: por que razão esse autor célebre e desconhecido está falando num painel em Paraty se não foi convidado?

De antemão já faculto a todos o direito de sair desta sala e ir prestigiar algum proeminente autor neozeolandês, camaronês, bielo-russo ou mesmo ir almoçar as deliciosas lulas estufadas do restaurante do Hiltinho.

Agora, respondendo à pergunta, propriamente dita: como o escritor italiano Roberto Saviano, autor do livro Gomorra, cancelou sua vinda ao Brasil – ele está sendo perseguido pela Máfia – fui chamado às pressas para substituí-lo.

A princípio fiquei bastante inseguro, já que poderia eventualmente ser confundido com o colega e acabar indo para Pasárgada só com o bilhete de ida. Mas, sabem como é, quando um cronista de humor teria a chance de dar seus pontos de vista a público tão dileto numa solenidade tão midiática? Creio que nem no dia em que o Brasil tornar-se o maior mercado leitor de James Joyce.  De mais a mais, tenho milhares de livros consignados por livrarias brasileiras.  Se não vendê-los rapidamente, logo serei encontrado num beco escuro com a boca cheia de papel de gramatura pesada.

Isto posto gostaria apenas de pedir aos presentes que não saiam deste recinto até que eu termine minha fala. Garanto-lhes que ela será muito breve.  Farei, a bem da verdade, apenas uma pergunta bastante simples e cartesiana: para que existem festas literárias como essa?

Eu estou aqui perdendo meu tempo enquanto poderia estar escrevendo. E as senhoras e senhores gastando o seu enquanto poderiam estar apreciando o meu processo criativo. Ou o de algum autor catalão, escocês, croata, indiano.

Não sei se estou equivocado, mas quando um artista precisa explicar-se ou ele ou seu público estão com algum problema funcional. Por tal razão não deslindarei nada a respeito do meu trabalho aqui, pois acredito que nem eu, nem as senhoras e senhores, possuam qualquer dificuldade na interpretação de textos.

Então vou tomar a liberdade de pedir à organização da Flip que traga um banquinho ao palco porque, com o meu violão, vou usar o resto do tempo da palestra para cantar algumas canções populares brasileiras contemporâneas.

Vamos lá – um, dois, três:

“Sei que sou gostoso / Pode conferir, meu bem / Eu já peguei tua amiga / Mas quero você também…”