Um autor da linhagem de Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis e Lima Barreto.

 

(Wikipedia / Arquivo Nacional)

Quando comecei a escrever crônicas profissionalmente em 1987, aqui mesmo no Estadão, eu era o mais café com leite do Caderno 2. Mas qualquer um seria Scooby-Doo se estivesse ao lado de nomes como Carlos Drummond, Fernando Sabino, Caio Fernando Abreu e Rachel de Queiroz.

Eu era fã de carteirinha do Sabino (ainda sou). Comecei a ler tudo o que me caia nas mãos de sua autoria. Tinha esperança de um dia, como seu “colega” de jornal, falar pessoalmente com a lenda. De fato, o encontro marcado ocorreu e, mais para frente, prometo contar aqui. Hoje, entretanto, o ator principal será outro escritor, que acabei descobrindo por causa do livro Gente, de Sabino. Essa obra, em dois volumes, traz um gênero bem tradicional: a crônica de perfil. Em suas páginas, encontramos de narrativas sobre Di Cavalcanti, Dorival Caymmi, Oscar Niemeyer, Mário de Andrade a textos sobre Pelé, Chico Anysio e Roberto Carlos. Fernando Sabino as produziu de abril de 1973 a dezembro de 1974 no Caderno B do Jornal do Brasil.

No primeiro volume, ele lança mão de toda sua maestria e observação para falar de Marques Rebelo. Eu já tinha lido os romances da série O Espelho Partido, tão elogiados por gente como Millôr Fernandes: O Trapicheiro, (1959), A Mudança, (1962), A Guerra está em Nós, (1968). Porém, desconhecia que Rebelo fora um cronista tão medular nos tempos do Última Hora, ao lado de Nelson Rodrigues e de outras sumidades do gênero brasileiro.

É assim que o mineiro retrata Marques Rebelo, em breves pinceladas, numa crônica que leva o nome de Espelho Partido.

“Em sua casa só bebíamos água. O que não impedia que a roda fosse sempre animada. Sua verve contagiante dispensava o estímulo de qualquer bebida.

Às vezes apareciam Maurício Rosemblat, Magalhães Júnior, Álvaro Lins, que moravam no mesmo prédio, ali no Botafogo, no princípio da curva do Morro da Viúva. A mineirada era fiel: Otto, Paulo, Rubião, eu. Os artistas plásticos predominavam: os pintores Percy Deanne e José Morais, o escultor José Pedrosa, o crítico Flávio de Aquino.

Suas tiradas eram irresistíveis, sua reação sempre desconcertante, sua conversa um espetáculo: fantasiava situações, transformava conhecidas figuras em personagens de farsa, recriava incidentes em termos de chanchada, parodiava, escarnecia, satirizava, com uma mordacidade que não poupava nem a si mesmo. Não surpreendia que seu escritor predileto fosse Jules Renard.”

Outro leitor leal de Eddy Dias da Cruz (era este seu verdadeiro nome) é Ignácio Loyola Brandão. Ele reafirma o apreço pelo seu inspirador na apresentação de O Trapicheiro:

“Quando escrevi meus primeiros contos, Roberto Freire, o psicanalista, romancista e dramaturgo, ao saber que eu estava tendo problemas de diálogo, me aconselhou: “Leia Marques Rebelo e Nelson Rodrigues. Neles, as pessoas falam de verdade”.

Marques Rebelo, muitos dizem, é amar ou odiar. Oswald de Andrade, por exemplo, o definia numa frase maledicente: não passa de um “campeão de corrida rasa de 100 metros”.

Mesmo assim, fica difícil não admitir que, como cronista, poucos conseguiram unir ternura e sarcasmo de modo tão primoroso. Pena que ainda seja tão deslembrado.