A diferença entre querer e precisar ser um ícone.

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Foto: Carlos Castelo

Quando eu ia saindo da minha habitual caminhada pelo parque vi a estátua. Estava na saída para a avenida principal. Se fosse uma escultura que estivesse sempre ali, não me chamaria tanta atenção.

Representava um idoso andando. Encurvado, as mãos, os pés levando-o para adiante, o rosto crispado. E o que me calou mais fundo é que o mármore, não era uma rocha, mas um homem.

O mundo de 2016 quer ser ícone. Pergunte “qual o seu sonho?” a um menino de rua, a um fisioterapeuta, a um motorista do Uber e todos, sem exceção, lhe dirão, amigo internauta, que querem ser uma efígie na vida.

Mas e aquela estátua na saída do parque? Queria ser ou precisava ser?

Pelas condições atmosféricas daquele final de manhã tive quase certeza que aquele homem carecia demais ser um ídolo. A soalheira estava intensa, o céu sem nuvens e a umidade relativa do ar baixíssima.

Fiquei supondo o que estaria pensando o imóvel no meio das pessoas. Debaixo dos pancakes e brilharecos no rosto, da roupa desaconchegada e cintilante, a preocupação com o prestamista, a mensalidade da escolinha do filho, a quitação da bicicleta da Casas Bahia.

Isso tudo percorrendo a mente e a turba em volta esperando a estatuária piscar, se movimentar, assustá-los, açulá-los para em seguida voltar à sua dormência mineral.

Isso tudo e a menina mirrada, balão de gás vermelho à mão, a cara de espanto, vendo pela primeira vez a imagem de um adulto paralisado sob o sol. Boquiaberta, um fio de ranho descendo-lhe pelas ventas, parecendo dizer para si mesma: “isso nunca passou no Discovery Kids”.

Momentos depois passei a divagar sobre como seriam os preparativos para virar um monumento humano daqueles.
Acordar antes das seis da matina, juntar os trens todos na maleta de artista circense.

– Vai fazer quem hoje, José? – devia querer saber a mulher enquanto tomava café na caneca de bocal lascado.

– O Velho Corcunda.

– Então passa na farmácia, compra o Hipoglós e o lápis de sobrancelha que o teu acabou.

Aí viria a parte de pegar o ônibus, em seguida a linha Esmeralda da CPTM. Achar um canto para se produzir, se pintar. Subir no púlpito e não fazer mais nada. Só esperar que caíssem no chapéu mais moedas e notas de dois reais que no domingo passado. Rezar para que não viessem com sacudões ou cusparadas, feito os vândalos aprontaram com um colega na Paulista antes da manifestação. A categoria toda se revoltou, esperar o quê de uma cidade que não reverencia a estátua do Duque de Caxias?

Naquela hora, quando o corcunda de pedra piscou, a menina mirrada teve um sobressalto, depois até sorriu. Mas o balão escapou, saiu voando. O gás logo o conduziu aos telhados do Cingapura, ao som de gritos e imprecações.

Todos correram para tentar salvar o brinquedinho, menos a estátua. Ficou ali, firme sob o pedestal, na postura clássica do artista fingidor.

Dói ver uma criança em prantos, mas até a inércia tem as suas leis.