Duas ou três coisas que sei sobre Zé do Caixão

(Steve Roberts por Pixabay)

Zé do Caixão morrer é a prova definitiva de que, no Brasil, nada funciona. Nem os zumbis.

Curiosamente, o imortal (até ontem) José Mojica Marins, em determinados momentos, esteve presente em minha vida. A derradeira nem faz assim muito tempo.

Eu era redator numa agência de publicidade que tinha a conta de um inseticida. Colegas meus escreveram um roteiro em que Zé do Caixão seria o protagonista contra as baratas e mosquitos. Todos ficaram num grande frisson ao ver o pai de À Meia Noite Levarei Sua Alma circulando pelos corredores da empresa.

Dias depois encontrei o diretor do comercial num restaurante e quis saber como tinha sido a experiência de trabalhar com o mestre do Terror brasileiro.

Disse-me ele:

 Quando acabaram as filmagens, por educação, eu disse ao Mojica: “Zé, quer mais alguma coisa?” Ele olhou para uma lata de lixo ali ao lado e falou: “posso levar aquelas pontas de negativos que jogaram fora, dá pra eu filmar um bocado com elas”.

Era assim a vida desse diretor que, segundo o jornalista, Alexandre Fernandez, autor de uma tese na Sorbonne sobre a obra de José Mojica Marins, é o único cineasta autóctone do país.

Numa outra oportunidade, quando editava as páginas da editoria de Entretenimento do jornal PrimeiraMão, estava preparando uma matéria sobre escolas de atores. Da minha mesa na redação ia ligando para os números que a assistente me passara e pedindo mais informações sobre os cursos. Na décima ligação, atende aquele voz inconfundivelmente roufenha.

Sim, talvez para fazer uns cobres, Zé do Caixão dava aulas de interpretação. Não devia ser fácil pagar de realizador trash numa Geografia que não respeita nem a História, quanto mais as Artes e a Cultura naïf .

A nota fúnebre de ontem lembrou-me ainda quando, na faculdade de jornalismo, fui entrevistá-lo para um microjornal que editava.

Em seu escritório no centrão, cheio de cabeças de animais pelas paredes, nosso Nosferatu me recebeu de ótimo humor. Ali pelas tantas, fomos assistir, na ilha de edição, uma cena de um filme que ele havia dirigido tempos atrás. Era assim: uma mulher caída no chão, seminua, sendo atacada por um batalhão de aranhas caranguejeiras. Os bichos subiam por suas pernas e a cobriam quase que por inteiro.

Impressionado com o realismo do take, perguntei:

Mojica, que efeito especial você usou pra fazer isso?

 E ele, sem tirar os olhos da tela, respondeu:

 Pinga. Enchemos a atriz de cachaça.