Eu era um fedelho no dia 31 de março de 1964. Mesmo assim tenho uma clara recordação da data.

Fui filho único durante muito tempo e, pouco mais de uma semana antes do golpe, minha única irmã chegou ao mundo. Nasceu na Liberdade num momento pouco libertário do país.

Apesar da pouca idade percebi dois níveis de ansiedade em casa naqueles dias. Uma ligada ao nascimento da criança. Minha mãe tinha algum tipo de distúrbio que a levava a perder os filhos nos primeiros meses de gravidez. Fora eu, que vingara, mais uns três irmãos meus tiveram a felicidade de não virarem cidadãos brasileiros em tempos de chumbo. Por isso, toda a tensão em torno do parto. A outra angústia era do meu pai: precisava saber detalhes sobre a “Revolução” via rádio AM.

Como em 2016, naquele 1964 intuía-se que, mais dia, menos dia, um raio cairia sobre nossas cabeças.

Creio que acabei desenvolvendo uma bronquite asmática crônica por causa desses 10, 12 dias antes da Redentora.
Minha mãe, pálida, a pressão baixa, caminhava pelo apartamento como um zumbi. Meu pai levava o rádio Philips de ondas curtas para todo canto. Minha avó, silenciosa, rezava rosários apressados para que o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo nos afastasse dos perigos. E eu, mesmo não sendo um analista sênior de catástrofes, sabia que acabaria entrando pelo cano. Ou porque as coisas terríveis que o noticiário apregoava acabariam se concretizando, ou porque estava na cara que seria impichado do meu trono de príncipe herdeiro.

Somado a isso havia o medo de que a minha mãe não voltasse da maternidade. Posso ter me tornado um paranoico hoje, mas na época tinha inúmeras razões plausíveis para acreditar na perda dela. A começar pelo que ouvia saindo de modo sibilante dos lábios ressequidos da avó em suas preces. De cada dez expressões do seu mantra, seis eram “morrer de parto” e as outras “que a criança nasça com saúde.”

Sendo franco, eu estava me lixando para que alguém nascesse. Quanto mais que fosse saudável. Sabia que seriam mais duas mãos querendo pegar meu forte apache e isso já era o bastante para anular meu desejo de recepcioná-las com uma gargalhada de felicidade.

Mas medrou. E, para minha surpresa, as mãozinhas dela – era uma menina – não davam pra pegar nem uma migalha de pão, quanto mais os índios, cowboys e cavalos da minha cidadela.

Fiquei mais tranquilo, mas acho que a culpa que me deu de pensar tantas coisas sombrias sobre aquele lindo pacotinho acabou fazendo meu pulmão chiar feito uma chaleira no fogo alto. Lembro-me bem do dia em que os tanques entraram na cidade porque a minha avó esfregava vigorosamente Vick Vaporub em mim.

“Quero ver esse peito piar de novo, vou esquentar bem ele!”- dizia dona Alzira enquanto me amassava feito uma massa de pizza.

Mamãe adoeceu do parto e papai abandonara o rádio AM para tocar sua carreira de caixeiro-viajante, já que a situação do país “entrara nos eixos”.

Um dia, no finzinho desse mesmo ano, indo para a escola meu pai revelou enquanto dirigia seu Mercury:

“Sabia que você é parente do presidente Castello Branco?”

Recordo-me até hoje da fala. Mas só fui saber direito o que era um presidente e quem era Castello Branco quando estava, bem mais tarde, fazendo alistamento militar. Chovia e cheguei às seis da manhã na junta. Quando mostrei meu RG, um militar notou meu sobrenome e ordenou que eu ficasse em primeiro lugar na fila. Os que chegaram antes que esperassem no aguaceiro.

Há cada vez mais coisas em comum entre 1964 e 2016. Mas tomara que a pior delas seja a minha bronquite asmática crônica.