Mudaria o Natal ou mudei eu?

(Machado de Assis)

[Edeni Mendes da Rocha Teka (Pixabay)]

As gêmeas passaram a tarde arrumando a mesa da ceia. A mãe cuidou dos assados de forno porque o forte das filhas sempre foi decorar apetrechos de casa: eram de pouco comer. Dona Irene, virava e mexia, oferecia a elas uma bestagenzinha: uma peta, uma tapioca, um docinho de leite com queijo do Serro. Mas comedoria não era mesmo com Rosalaura e Laurarosa. Desde que vieram ao mundo sempre foi aquela magreza de bambu vestido de saia. Quando metiam alguma coisa na goela dava uma gastura ver aquela triturância de horas, os dentes pisando, macerando tudo antes do repasto descer no rumo do goto. Assim, com tanto protocolo no deglutume, não se faz banha nem engolindo um litro de manteiga de garrafa.
Zé Ronaldo, esposo de Rosalaura, há muito tempo queria um menino. Mas, com a falta de sustança da mulher, quem diz que criança parava no bucho? Nem com rosário apressado para Santa Margarida. O próprio doutor Ascânio tinha dado a letra: “moça, se alimente melhor, senão pode esquecer de pãozinho no forno”.
Laurarosa era um tiquinho mais rechonchuda. Vez em quando tinha uns repentes e se passava para os sonhos de valsa feito porco em dia de comer bosta. Mas logo passavam os arvoramentos.
Zé Ronaldo vivia desgostoso com a desemprenhação da mulher. Dera até para aumentar a cota de goró. Naquela véspera de Natal então foi dia de tragar pitu como se fosse limpar fossa. Sete da noite já estava tão zonzo quanto o peru que dona Irene encachaçara pela manhã. Era seu mister, todo santo ano, botar as vestes de Papai Noel e entregar as lembrancinhas para os meninos do orfanato onde a sogra era enfermeira. Foi penoso demais conseguir se empertigar.
Tomou um chafé bem amargoso e, só após uns minutos, conseguiu se aprumar dentro dos panos de Bom Velhinho.
Olhava-se no espelho pensando em como seu corpanzil até ornava bem com aquele ofício anual, quando viu os cambitos da cunhada passando pelo corredorzinho.
Dali a um tempo, Dona Irene e Rosalaura adentraram no sobrado. A matrona trazia numa sacolinha do supermercado Dia duas romãs para a salada. Quando botavam as frutas no tupperware ouviram o alarido. Correram para o quarto de cima e lá estava o Papai Noel tentando praticar sem-vergonheza com Laurarosa – a pobre com a cara de gata sujigada em tina d’água fria.
Rosalaura, mesmo no esmorecimento da cadaverice, levou o balofo do Zé Ronaldo para a porta da rua puxado pela barba postiça. Passou-lhe uma pisa comprida e bem dada. A segunda metade do pancadeamento foi no meio do asfalto, e a seis mãos, com a irmã e a mãe auxiliando até a dar pesada no desgraçado do ébrio.
As crianças do orfanato nunca mais botaram fé em Papai Noel.