O calvário de um autor para lançar seu livro.

(Foto: Pixabay)

Ormindo J. Bezerra da Serra estava desolado. Recebera o terceiro “não”, só naquela semana, em relação à publicação de seu livro de estreia. O que magoava mais era saber que fizera tudo do modo mais correto e assertivo. Não era mais um youtuber com um milhão de seguidores no Facebook tentando virar subcelebridade. Estudara duro: graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado. Tudo para provar as semelhanças entre heróis medievais e contemporâneos. Foi partindo dessa hipótese ousada que escreveu as 986 páginas de “Batman, Robin e o heroísmo feudal”.
Não foi fácil criar relações entre semideuses da DC Comics e figuras como Rei Arthur, El Cid e Ricardo Coração de Leão. Só após 16 anos de pesquisas e muita metodologia científica atingiu seu objetivo final.
A partir daí foi para cima das editoras como um cruzado ia para cima de um mouro. Contudo, nem mesmo a fúria e a gana de um combatente de Cristo mudou a tendência editorial de privilegiar o prosaico. Já no primeiro encontro percebeu que o calvário não seria nada piedoso.

– É um livro de humor, Ormindo? – quis saber um editor.

Engoliu em seco, sua vontade era fazer o patife engolir folha por folha do seu volumoso catatau.

– Relaxa. Foi uma piada – continuou o editor – é porque ainda não sei como classificar a sua obra. É História, é Sociologia, é autoajuda? O meu leitor precisa se informar, mas antes anseia por serviços. Por que você não faz um capítulo com um guia de restaurantes bacanas na Turquia, onde teve o Cerco de Antióquia?

Ormindo nem tentou criar o tal caderno de gastronomia. Foi caçar opiniões em outras freguesias.

Dessa vez, para ficar mais seguro, enviou os originais para 23 editoras. A cada uma, missivas que eram verdadeiros papers acadêmicos detalhando exegeticamente o porquê de Batman e Robin contemplarem as mesmas tradições heróicas de uma Latrão, só que numa Gotham City.

Depois de alguns meses de ansiosa espera, as devolutivas chegaram. A totalidade das empresas agradecia a preferência e sugeria que Ormindo procurasse outra alternativa.

Por fim, já bastante desgastado, resolveu conhecer a editora do cunhado de seu barbeiro.

Diferente de outros lugares foi recebido pessoalmente pelo dono, à base de água gasosa e nespresso. Contou sua ideia em detalhes e foi ouvido com grande atenção. Ao final, o homem lhe disse:

– Interessantíssimo seu estudo! Aqui, como você notou, somos diferentes.

– Que bom! – concordou o escritor.

O editor prosseguiu:

– Somos curadores. Você escreveu o material e, na minha editora, vai também produzir todo o resto. Editar, diagramar, revisar, distribuir e vender os livros.

Ormindo não compreendia, suava em bicas…

– É um conceito novo. Apoiamos seu trabalho e, para tanto, pedimos 80% do que você vai investir em seu livro. É pegar ou largar, escritor no Brasil não ganha nem 10% do valor de capa, meu caro.

O ambiente foi-se enevoando, acizentando, e Ormindo tombou com a testa em cima de uma pilha de livros de uma socialite.

Quando deu por si estava no Paraíso com anjos tocando Vivaldi. A segunda coisa que viu foi uma enorme fila em frente a um prédio.

Endireitou-se, respirou fundo, e perguntou a um dos querubins mais próximos:

– Que fila é essa, meu santo?

– É pra editar livros. Dá um passinho pra trás, por favor, você pegou o lugar do apóstolo Paulo… – respondeu o ser alado.

– Apóstolo Paulo? – duvidou Ormindo.

– Isso – replicou o anjo – ele está tentando lançar o Novíssimo Testamento há uns seis anos e só leva “não”. Deixa ele passar, é por uma boa causa…