Para Käthe Weber.

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(Foto: Arquivo do autor)

Entrei no quarto do meu pai e dei com uma Olivetti Studio 46 azul-calcinha.

Eu devia ter uns 16 anos e andava com desejos de botar no papel – era como se dizia nos tempos analógicos – meus sentimentos e emoções juvenis.

Essa 46 foi pé quente. Quando completei 17 anos o velho deixou eu usar a azulzinha. Abri os trabalhos batucando um conto narrando a história de um tio nosso. Intitulei-o “Monólogo de um aposentado” e enviei ao concurso mensal da revista literária “Escrita”, editada pelo escritor Wladyr Nader.

Para meu espanto esse texto prematuro foi escolhido, juntamente com um de Marcia Denser e outro de Furio Lonza, para a edição seguinte da prestigiosa publicação. Ainda por cima faturei uma assinatura anual da “Escrita”.

Quando fui me cadastrar na editora para receber os números em domicílio o Wladyr, em pessoa, veio abrir a porta.

– Veio fazer o cadastro do seu pai? – indagou.

– Não, EU sou o Carlos Castelo – repliquei, amuado.

– Foi você que fez aquele texto do aposentado? –  disse ele, surpreendido com minha pouca idade.

Naquele tom dos jovens marrentos lhe devolvi:

– Fiz não, inventei. Não pode?

Esse foi um dos inúmeros episódios que vivi por causa de uma máquina de escrever. Foram muitos outros, inclusive porque estudei Jornalismo e passei quatro anos enchendo laudas em gigantescas Remington no Laboratório de Redação da faculdade.

Contudo, num determinado momento, julguei que as Underwood, Facit e Olympia haviam saído definitivamente de minha vida. Substitui-as pelos laptops da Apple com relativa facilidade ainda nos anos 1990.

Só que nunca deve-se cuspir no teclado em que se digitou. Faz pouco tive a ideia de escrever aforismos diários e postá-los numa página que mantenho nas redes sociais. Mas o legal seria vê-los na tipologia da minha antiga Olivetti, numa estética vintage, como dizem os teóricos de plantão . Escreveria num A4, fotografaria com o smartphone e depois jogaria na web.

O conceito estava pronto, faltava só o hardware

Usei obviamente a própria internet para anunciar que precisava de uma máquina de escrever. E, minutos depois, uma amiga do Whatsapp, moradora de Curitiba, me responde.

– Tenho uma antiguinha, vou mandar reparar e assim que for um remetente pra São Paulo leva pra ti.

Fiquei na expectativa. Depois de um mês ela me avisa:

– Chega o Pernacchio (vamos chamá-lo assim) amanhã na Vila Mariana. Combina com ele de pegar a bichinha…

Antes de copiar o referido Pernacchio no Messenger, a querida amiga me advertiu:

– Pega no pé que o Pernacchio é meio lento…

Resumindo a ação, considerando que este espaço é de crônica e não de novela, tentei me encontrar com Pernacchio durante seis semanas. Uma hora ele podia e eu não, em outro momento era o inverso. No dia que os dois conseguiram, peguei um Uber até seu prédio. Chegando lá, o porteiro me informa que não haviam deixado encomenda alguma, muito menos uma máquina de escrever.

Odiei Pernacchio com todas as minhas forças e prometi largar a vaidade de fazer frases vãs usando o teclado mecânico.

Três meses depois tive que ir a um cartório na Vila Mariana. Ficava quase em frente ao edifício daquele que prometi nunca mais contactar.

Desembarguei a documentação toda e fui almoçar em um restaurante mineiro do distrito. O local era todo decorado com objetos antigos. Ao lado da minha mesa havia, sobre rústica prateleira, uma reluzente Remington dos anos 1940.

Depois de muito refletir decidi ir à portaria do prédio de Pernacchio. Estava lá um outro senhor a quem perguntei se havia uma encomenda em meu nome.

– Tem essa máquina velha aqui, está esperando o portador tem mais de mês, já ia devolver pro apartamento.

Sorri como um rapazinho de 17 anos que ganhou um concurso de contos. E, quando partia com a Olivetti verdinha debaixo do braço, ainda ouvi o porteiro murmurar ao longe:

– Máquina de escrever! É cada louco!