Dia desses dias levei umas das maiores fechadas no trânsito da minha vida. Quase me estropiei todo.

O fato ocorreu mesmo tendo eu tomado todas as precauções possíveis no que dizia respeito à minha porção motorista. Em tempo: não faz muito tempo fui atropelado no quinto subsolo de um estacionamento. Ou seja, sou mais do que gato escaldado.

A fechada foi de um caminhão. Mais especificamente um Mercedes-Benz azul da Mudanças Irineu.

Eu já tinha visto muito absurdo na vida e no caótico tráfego paulistano, mas o que esse motorista promoveu foi simplesmente inimaginável. O meu carro estava na pista da direita da Marginal Pinheiros e o caminhão de mudanças na da esquerda. De repente, ele virou abruptamente e veio se encaminhando para o meu lado. Até agora não entendi como, com aquela antieuclidiana manobra, o bólido não atingiu os automóveis que trafegavam nas pistas do meio. A cena mais parecia uma daquelas perseguições de carros do filme “A Identidade Bourne”, em que veículos de todos os tipos e marcas voam, se despedaçam, carretas capotam dentro de rios etc.

Felizmente não aconteceu a parte das hecatombes na ocasião, mas foi por muito pouco.

Quando percebi a gigantesca massa metálica vindo para cima de mim tive a sorte de – em vez de acelerar – não fazer absolutamente nada. Acho que, pelo susto em si, entrei numa espécie de inércia. Foi o que salvou a lavoura. Se tivesse ido bruscamente para frente teria abalroado um food truck e aí ia sobrar mais kebab na Marginal do que em festa de beduíno no deserto do Saara. Se instintivamente freasse, teríamos uns sete motoboys a menos fazendo entregas na capital paulistana.

Tentei emparelhar com o cara para xingar – sou sangue quente no trânsito, não tem jeito. Mas o motorista acelerou e, para não bater nos outros, me aquietei na minha faixa. Só que fotografei o número do telefone que estava na carroceria, parei no acostamento e liguei para a firma. Deu-se o seguinte diálogo telefônico:

– Mudanças Irineu, pois não?

– Eu queria reclamar de um dos caminhões da sua empresa. Ele quase provocou um grave acidente aqui na Marginal Pinheiros agora.

– Mas nós só temos um caminhão.

– Só um?

– Isso. E estou dirigindo ele agora, inclusive.

– Você está na Marginal?

– Estou. No celular.

– Então vai à merda, Irineu!