Não, o humor não morreu.

 


(Imagem de Prawny por Pixabay)

Em artigo para o jornal Rascunho (O humor morreu), o escritor José Roberto Torero lançou uma provocação. A premissa foi a seguinte:

“Dê lá uma olhada na lista dos livros brasileiros de ficção mais vendidos deste mês no PubliShnews. Entre os cinco primeiros há um juvenil e quatro adultos, que são: “Torto arado”, “Tudo é rio”, “Quarto de despejo” e “O avesso da pele”. Todos ótimos, sem dúvida. Mas a questão é outra. É que um modo de escrever está dando seus últimos suspiros. Culpa dos leitores ou dos escritores, dos editores ou de todos?”

O autor de O Chalaça prosseguiu se indagando sobre o que estaria levando o gênero à uma suposta UTI:

Parece que o humor está deixando de ser um jeito de ver a realidade. Hoje enxergamos tudo pelos óculos da seriedade e pela lente de contato da melancolia. A culpa será de Bolsonaro, que é quase um sinônimo de tristeza e faz péssimas piadas, desmoralizando o humor? Será de uma esquerda ranzinza, que em parte virou um clube de censores ranhetas? Será dos centristas, que nunca fazem nada de graça? Será da realidade? Da certeza incontornável da morte?”

Foi justamente na frase “parece que o humor está deixando de ser um jeito de ver a realidade” que passamos a não comungar mais da mesma opinião. O papo de “matar o humor” não é de agora. Desde sempre vivem tentando eliminá-lo. O que fez a Igreja com o capítulo Comédia, da Poética, de Aristóteles? Será que não destruíram aquela fração da obra, preservando apenas a teoria sobre a Tragédia, por considerarem o humor algo de diabólico? Faz mesmo sentido: alguém já viu uma imagem de Jesus Cristo rindo?

O humor, porém, é imortal. No chão em que pisa há uma ancoragem que vem desde Aristófanes, na Grécia Antiga. Não há dúvida de que toda a comédia contemporânea é uma inesgotável conversa com Marcial, Luciano de Samósata, Rabelais, Swift, Voltaire e uma zaga enorme.

Por outro lado, não figurar em listas de livros mais vendidos, não significa que inexista produção humorística de qualidade no país. Fora os ótimos autores citados por Torero – Duvivier, Prata e Tati Bernardi – há ainda muita gente talentosa.

Posso até citar alguns, en passant: o frasista Fraga, os cronistas Sebastião Nunes e Arzírio Cardoso, o romancista Ernani Ssó, os poetas Glauco Mattoso e Wilberth “Bith” Salgueiro. Talvez não sejam lembrados como deveriam. Mas é porque não contam (ou não querem contar) com a mídia que o trio citado dispõe. E, sem espaços de grande repercussão (como foram os Diários Associados, o jornal Última Hora, a revista O Cruzeiro), Millôr, Sabino, Verissimo ou Stanislaw também não seriam figuras tão distinguidas. Não há comunicação sem veículos poderosos que a conduzam aos receptores.

A grande mídia é um reflexo do pensamento das elites. Sempre foi assim. E o que são essas elites hoje? Por que não quereriam consumir humor? São as perguntas certas a se fazer. Porque o humor está aí, vivo como em 400 a.C. Inclusive, nos formidáveis textos de José Roberto Torero.