“Vi que ele não sabia ou não sentia o que eu era…”

(Foto: Milada Vigerova)

E se James Joyce escrevesse aquele famoso monólogo que fecha o Ulysses nos dias de hoje?

…a lua brilha para você ele me disse quando estávamos dançando entre os malucos na balada com seu tênis all star azul e o boné de skatista não primeiro eu lhe dei um chega-pra-lá e era noite como agora não há 15 dias meu Deus depois daquela tentativa de beijo quase perdi a paciência não ele disse que eu era uma flor da montanha certo somos flores todo o corpo da mulher foi a coisa mais breguinha que já ouvi na minha vida e a lua está brilhando para você hoje não por isso ele não me agradava vi que ele não sabia ou não sentia o que eu era e tive a certeza de que não poderia fazer dele o que eu quisesse e dei-lhe todo corte que pude para levá-lo a perceber que não e eu não quis responder logo só fiquei olhando para o o DJ e as luzes pensando em tantas coisas que ele não sabia e olhando as minas com seus xales e cabelos afro enormes e os energéticos na manhã os baianos pernambucanos cariocas e não sei que diabo de gente ainda de todos os cantos do Brasil e na rua Augusta e a facul cheia de calouros em frente aos veteranos e os pobres bichos tropicando meio bêbados e os vagabundos dos primeiranistas dormindo na sombra das escadas da universidade as enormes ondas na prainha e o velho píer não e aquelas lindas surfistas todas em seus biquinis como deusas gregas pedindo a você que se sentasse em suas toalhas e Parati e a manhã que perdemos o barco para a Ilha Grande e Oh aquela terrível corrente marinhazul Oh e o mar às vezes como geleia e as pecúnias nos jardins da pousadinha não todas as estreitas vielas e casas brancas e azul e os coqueiros e as gaivotas na orla quando eu era bicho uma Flor da facul pintaram minha cara e meus cabelos como as gatas da Arquitetura ela me beijou sob o muro da Geografia e eu pensei bem tanto faz ela como outra veterana e então ele com o boné skateboard perguntou se eu queria minha flor da montanha e primeiro o empurrei jogando-o longe para que sentisse meus cotovelos só na ignorância não e seu coração disparando como louco e eu disse não quero Não.