Manias dos tempos de fumante.

 

(Pixabay – Markus Spiske)

Era uma mania dos tempos de fumante. Acabar de almoçar, tomar um café e soltar umas baforadas sentado ao ar livre. Hoje não havia mais lugar para o cigarro, mas o velho hábito de sentar-se no banco ficara.

No primeiro dia de trabalho foi ver se encontrava algum por aquelas bandas. Deparou-se com um interessante, bem lavrado e disponível. Acomodou-se, estirou as pernas, suspirou. Aqueles cinco minutos eram revigorantes, libertadores. Dava para pensar ou até não pensar, se fosse o caso.

Deixou-se ficar no dolce far niente. E acabou entrando na chamada zona não-operativa. Aquela que nos computadores chamam de repouso. Você está ligado e não está. Ponto de mutação.

Alheio, começou a explorar sensorialmente a madeira do banco. Acariciou-a lentamente. Depois reparou nos respiros, a textura do tronco. Gostou de inserir o dedo nos furinhos redondos, dava para sentir os veios.

Uma sensação de fazer parte da natureza sobreveio. Foi metendo, um por um, o mindinho, o anular, o médio, o indicador. Até chegar a vez do polegar.

Quando foi puxar este de volta, não aconteceu nada. Trouxe-o com um pouco mais de atitude e nada. Apoiou a mão no banco e, com a outra, tentou se desvencilhar. O artelho teimava em não sair do furo.

Teve de se arrojar e colocar o pé sobre a madeira amarronzada. Usando-a como ponto de apoio buscou desesperadamente retirar aquela parte sua presa no pedaço de árvore morta.

A pequena multidão que estava ali pitando logo veio ter com ele. Procuraram ajudá-lo, mas o polegar permanecia querendo não sair de onde estava.

Chegaram os bombeiros, a TV, as rádios, a PM e até um paramédico.

A assistência pensou em soluções de todo tipo. Lambrecaram lhe até o dedo com vaselina e ele insistia em continuar fazendo parte do móvel. Depois de algumas horas de labuta, sem resultado, tiveram de serrar o banco.

O fato logo espalhou-se pelas redes sociais, fotos dele no Instagram com cara de insano olhando para o polegar enganchado. No Facebook criaram a fan page ‘Dedo Teimoso’ e os memes se reproduziram feito vírus na rede.

Tudo parecia indicar que a situação, como muitas outras semelhantes que ganharam a mídia, logo seria esquecida. Até que uma agência de publicidade, meses depois, lembrou-se do episódio e encetou uma campanha-monstro com ele dando um testemunhal. Era para um gel lubrificante íntimo. O comercial, exibido em TV aberta, virou o talk of the town da temporada.

Não tinha como não virar celebridade nacional. Logo ganhou assento, com o perdão do trocadilho, em todos os órgãos importantes de comunicação do país.

Hoje dá consultoria sobre mobiliário e sexo alternativo. Semana passada palestrou em Pequim.

Aliás, depois que ganhou um talk-show em que conversa com celebridades sentado ao lado delas no mesmo banco em que ficou engatado, os convites para falar de como a experiência o engrandeceu não param de pulular.

O nome do programa de TV? “Um dedo de prosa”.