O medo do Bom Velhinho.

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(Foto: Carlos Castelo)

Luísa é minha caçula de três anos. Dos meus quatro rebentos ela é a única que não teve medo daquele sujeito lapão, o Papai Noel.

Como o Natal começa cada vez mais cedo, esse ano, ali nos finais de outubro, ela pediu que eu escrevesse uma missiva ao Santa. Solicitou na cartinha duas bonecas: uma que faz birra, outra que faz cocô. Nem estranhei, pois o segmento de brinquedos anda tão criativo que já deve até existir boneca que faz birra para defecar.

Como estávamos em trânsito em Ribeirão Preto levei-a ao shopping mais próximo para promover a entrega em mãos. Lá foi a Luísa, lampeira, sentar-se ao lado do Bom Velhinho (esquálido em sua versão ribeirão-pretana) e ganhou duas balas de menta. Achou-o “do bem”, apenas decepcionou-se com os confeitos (“nem era balinha Sete Belo…”).

Perto do medo que seus três irmãos tiveram do mesmo velho homem, ela foi quase uma Anita Garibaldi.

Parte desse pânico com Noel dos meus meninos, admito, foi genético. Infelizmente trazemos nas hemácias e leucócitos a boa e a má herança de nossos antepassados. Acho que o trauma de Leonardo, Pedro e João deve-se à minha comoção inicial com o velhote.

Eu até gostava da ideia de um Papai Noel quando infante. Mas, ali pelos meus seis anos de idade, houve um episódio bastante desagradável em casa.

Explique-mo-lo ao leitor, como diria aquele presidente.

A tradição nordestina lá do Piauí é simples: Santa Claus deposita o presente debaixo das redes das crianças, não na árvore de Natal. Talvez porque as árvores em Teresina, durante o mês de dezembro, estejam mais secas que a Cantareira em 2015.

Eu tinha pedido um piano. Na verdade, uma pequena pianola. Entretanto, apesar de ser um mimo infantil, não era um brinquedo diminuto como um carrinho de lata.

Quando deu umas quatro da manhã, voinha entrou com o mini Steinway no meu quarto. Pois é, a saudosa vovó Alzira era o Papai Noel. Até combinava com o personagem os seus cabelos brancos, cor de algodão, sempre amarrados num coque. Mas o resto não tinha nada a ver nem com Mamãe Noel.

Em resumo, vó Alzira acabou tropeçando num pé de havaianas e tombou em meu quarto. Ao acordar, sobressaltado, estava com uma improvável Boa Velhinha em cima do meu diafragma e três teclas do instrumento faziam as vezes de dentes na minha boca.

Acabava-se ali desastrosamente o mistério natalino para mim. Mas ele sempre pode renascer em quem a gente ajudou a nascer. No caso, a Luísa. Os três rapazes, é claro, não estão nem aí para o pobre idoso.