Pneus me enchem.

IMG_3553

Foto: Carlos Castelo

Sábado chuvoso. Resolvemos dar uma chegada num shopping para não ter que se molhar por aí. Quando entrei na garagem notei que o piso estava muito liso. Pior: que os pneus do meu carro estavam mais calvos que o Anderson Silva.

Bastava acelerar que os dianteiros já ficavam rodando em falso. Peguei leve no pedal.
Contudo, quando fui fazer aquela curva antes da rampa, ouvi meu filho de 12 anos berrar no banco de trás:

– Pai, vamos bater na pilastra!

O velho Nissan estava se inclinando perigosamente em direção a um enorme pilar de concreto do estacionamento. Até agora não sei como não o macetei lá, foi coisa de milímetros.

Decidi que na segunda-feira , sem falta, substituiria os quatro pneus do veículo.

Antes é importante informar que em 2016 o meu Tiida sedan completará seis anos em nossa garagem. E seus Pirelli Cinturato continuam originais de fábrica. Isto porque me arrepio ao ouvir as expressões borracharia, centro de serviços, remold etc.

E há uma razão para o fato: meu bolso sempre entra pelo cano em tais ocasiões.

Com a internet e a possibilidade de pesquisar preços o meu medo se arrefeceu. Mas só um pouco. Dediquei a noite de domingo à busca de quatro pneus novos, de boa marca, a um valor que não me fizesse implorar um empréstimo à minha madrinha após a primeira parcela do cartão cair.

Foi espinhoso o esquadrinhamento. Depois de horas encontrei uma loja no Brás, a 18 quilômetros de meu domicílio, que estava com o valor de 300,00 por pneu.

Num cálculo rápido, 1200 reais divididos por 72 meses de uso veicular contínuo, daria um investimento mensal de 16,70 reais em pneus. Não me pareceu caro, ainda mais porque o estado em que eles se encontravam poderiam me fazer torrar bem mais de 167 mil reais em despesas hospitalares.

Toquei pro Brás. Pior do que me perder no caminho foi perder o almoço. Mas vale tudo para pegar uma promoçãozinha. Ainda mais considerando que seria a primeira vez que me davam um preço fechado sem acréscimos. Nada de “mais x de alinhamento, mais y de balanceamento, mais z de instalação.”

Deixei o Tiida em cima de um macaco hidráulico e fui comer bolovo numa padoca. Mal dei a primeira mordida e toca o smartphone:

– Seu Carlos? É o Clineu, da Lineu Pneus (vamos chamá-la assim).

– Pois não…

– Meu mecânico viu seu Nissan aqui e…tá feia a coisa nos amortecedores traseiros, viu?

– Eu vim pra trocar pneus, não amortecedores, Lineu.

– Clineu.

– Desculpe, Clineu…

Nesse momento entra a linguagem técnica mais incompreensível que os textos do James Joyce.

– Eu sei, mas o ângulo de ataque dos seus amortecedores está em 117 graus, vai ferrar a cambagem…

– Quero trocar SÓ os pneus, Lineu.

– Clineu.

– Lineu, Clineu, sei lá, mas são SÓ os pneus!

Veio o tiro de misericórdia.

– O senhor é que manda. Só que deixando os amortecedores velhos, vai ter que botar pneus novos logo, logo de novo. Mas beleza…

Como nas outras trocas que fiz na vida, a conta estourou em muito o orçamento. Mas em seis vezes no cartão e com direito a calibragem de nitrogênio sempre que eu quiser dar uma passadinha na Lineu Pneus do Brás.

Pena que só voltarei lá daqui a uns seis anos.