Livre conversar é só confabular.

(Pixabay)

I.

Li num desses matutinos que reinaugurarão, no 25 de janeiro, o Cine Bijou. A reação a tal notícia é proporcional a quanto você está velho e surrado. Quanto mais emocionado ficamos, mais estropiados estamos. No meu caso é preciso admitir que, numa escala de zero a acadêmico da ABL, estou menos próximo do zero do que de José Sarney. Sim, fiquei bastante comovido ao ver a foto de uma das salas. Ali assisti coisas do naipe de “Corações e Mentes”, Oito e Meio, Novecento, “O Sétimo Selo”, “Morangos Silvestres”, e tantos outros biscoitos finos. Agora é esperar pra ver o que programarão. Porque o Bijou não será um bijou se exibir o lixo radioativo que se aglomera pelas plataformas de filmes online.

II.

Os Beatles são foda. Ninguém vai negar.

Fizeram barba, cabelo e bigode em Get Back durante três semanas. Um trabalho notável. Mas queria ver criarem, com o mesmo brilho, uma campanha publicitária de Dolly Maracujá. Com pouquíssima verba, prazo pra ontem, sem briefing, sem infra. E obviamente sem a Pattie Boyd no colo. Aí eu chamava de Fab Four com a boca cheia. Não de Dolly Maracujá, mas chamava.

III.

Minha filha tem uma microcadela da raça maltês. Não pesa nem dois quilos e parece uma bolinha de algodão. Levo-a sempre para passear pelas redondezas.

Vinha eu hoje pela calçada com ela e um pensamento me ocorreu. Como um jumento consegue fazer um país cair de joelhos a seus caprichos? Foi quando ouvi o estrondo de uma queda. Num restaurante, mesas ao ar livre, havia uma mulher almoçando. Preso ao pé de sua cadeira, um poodle. Ao notar nossa nanocadela, o bicho correu para cima. Infelizmente, a coleira puxou o pé do assento e lá se foi a dona dar de costas no chão. Depois de conferir se a senhora estava bem (e estava, apesar do susto), segui flanando. Mais para frente conclui minha reflexão. Se um cachorro de dois quilos derruba um adulto, um jumento pode, sim, fazer um país cair de joelhos a seus caprichos.

IV.

A sede, na avenida Presidente Wilson, teve momentos febris. Tanto pela saúde frágil da maioria dos imortais, como pelas discussões acaloradas em meio aos chás ingleses e biscoitos de gengibre. A Academia Brasileira de Letras precisava se proteger e salvaguardar seus integrantes diante de uma pandemia interminável. Após horas de tratos, distratos e destratos terminou a votação. Agora é oficial: a ABL exigirá que seus 40 componentes apresentem, além de comprovante de vacinação, atestado de óbito. Exceção feita – manifesta haud indigent probatione – aos 20 membros perpétuos.