Meu amigo, o ditador.

(Reuters)

Koo sempre foi estranho. Estudei com ele, nos anos 1990, e vocês podem imaginar o bullying. O pior é que não era só com o nome, mas com a roupa, o corte de cabelo estilo cuia….

Por falar mal o Português, Koo ficava só na dele, sem se comunicar quase nada com a galera. Estava sempre desenhando: aviões de guerra, tanques, tropas e bombas. Nunca vi um moleque mais aficcionado por bomba atômica na vida.

Ficamos próximos porque, uma vez, no recreio, um garoto fortão da Turma B passou a humilhar o coreaninho. Exigia que ele pagasse pedágio para pegar água no bebedouro.

“Só vai beber se liberar uma grana, Koozinho” – repetia o Raul, com voz de mau.

Koo mirava o valentão com um olhar de ódio, parecia um ditadorzinho. Contudo, não tomava uma atitude mais direta. Foi quando me meti no conflito e dei ao Raul as moedinhas que levara para tomar lanche na cantina.

Viramos amigos. Depois de algumas semanas, Koo me convidou para ir almoçar em sua casa, após as aulas. Pegamos um ônibus e descemos no ponto final, num beco lúgubre do Bom Retiro. Paramos em frente a uma loja de produtos falsificados. O pai de Koo, seu Ijong, tocava o negócio sozinho e, na sobreloja, ficava a casa deles.

Uma velha senhora, também coreana, preparou o repasto. Comemos os três em silêncio respeitoso. Ao final, seu Ijong, falou comigo na língua deles. O amigo traduziu:

“Venerável pai pergunta se gostô do cacholo.”

O fato de eu ter ingerido um cão acebolado não me trouxe mais espanto do que quando a cozinheira asiática falou, no final da refeição, para o Koo:

“Pode tilá mesa, Kim Jong-un?”

Koo chamava-se Kim Jong-un. Seria um apelido? Ou estariam escondendo alguma coisa? Só vim a descobrir o mistério mais tarde.

Naquela tarde, ao terminarmos de deglutir o “cacholo”, descemos para a lojinha. Ali ficamos brincando com os cacarecos que seu Ijong revendia aos nordestinos do bairro: carrinhos Matchbox, made in Laos, aparelhos de Nintendo falsetas e outras bugingangas vindas do Paraguai.

Quando o pai de Koo foi atender um freguês, ele me puxou para os fundos do estabelecimento. Fez sinal para que me calasse e abriu um armário. Lá dentro estavam brinquedos muito mais interessantes, nunca me esqueci deles: meia dúzia de AK-47 novinhas e uma montanha de pentes de bala.

O amigo coreano empunhou uma das Kalashnikov e a engatilhou com grande familiaridade. Depois me estendeu a arma e riu da minha cara de espanto.

No fim do semestre, Koo não veio mais à escola. A diretora nos avisou que ele tinha voltado para a Coreia do Norte com o pai. Passado um tempo até me esqueci dele, do seu Ijong e daqueles incríveis fuzis de guerra no armário. A rotina voltou, como sempre. Só se alterou quando soubemos que o Raul foi encontrado boiando num córrego da Barra Funda.