“Nem os imparciais são imparciais. Eles são pela justiça.”

(Stanislaw Jerzy Lec)

(Foto: Carlos Castelo)

(Inspirado livremente na peça “O Espectador Condenado à Morte”, de Matéi Visniec).

Sala de tribunal. Ao fundo, um juiz – de peruca – bate o martelo iniciando a sessão. A seu lado está o júri formado por um pequeno grupo de homens, mulheres, crianças, cães e gatos. À frente estão o advogado de defesa, o promotor e o réu – um homem comum, de meia idade. A audiência conta com cerca de 20 pessoas.

JUIZ: Declaro aberta a sessão que hoje traz esse homem que tentou assaltar um banco e fugir num patinete elétrico, na zona sul da cidade de São Paulo. Que se manifeste primeiramente a defesa do réu!

ADVOGADO: O meu cliente é culpado, Meritíssimo.

AUDIÊNCIA (fazendo uma ola): Ohhhhhhhhhhh!

JUIZ: Discorra sobre a sua declaração, senhor advogado de defesa.

ADVOGADO: Meritíssimo, um homem que assalta um banco e, em seguida, tenta uma fuga num patinete elétrico é indefensável. Mais do que um crime, senhor, isso é uma imbecilidade. Acho melhor já encerrarmos aqui o julgamento, não tenho o que fazer, estou de mãos atadas.

O juiz vira-se na direção do promotor.

JUIZ: O promotor teria alguma colocação a fazer?

PROMOTOR: Sim, senhor juiz. Esse homem é inocente!

AUDIÊNCIA (fazendo a ola): Ohhhhhhhhhhh!

JUIZ (batendo o martelo): Silêncio, silêncio! Que a promotoria prossiga…

PROMOTOR (dirigindo-se aos jurados): Senhores, esse cidadão claramente não teve a intenção de roubar. Um homem que foge da Rota num patinete elétrico só pode ter agido num animus jocandi. Quis zoar, brincar, fazer COMÉDIA! (grita a última palavra e uma cadelinha branca, do júri, late).

JUIZ: Calada, Fifi! (a cadela resmunga, insatisfeita).

ADVOGADO: Data Vênia, Meritíssimo! Eu continuo insistindo que o meu cliente é culpado. E tenho uma testemunha-chave para comprovar.

JUIZ: Que entre no tribunal a testemunha da defesa.

Vem ao palco um homem, empurrado por um policial, numa cadeira de rodas. Está inteiramente engessado. Lembra uma múmia egípcia.

JUIZ: O que o acidentado tem a declarar?

ACIDENTADO (tenta se expressar, mas há gaze em sua boca): Omg, ofhammm, umf, umf.

JUIZ: Esse homem é islandês. Tragam um tradutor agora!

ADVOGADO: Ele não é islandês, ele foi atropelado pelo patinete do réu. Mais um crime perpetrado pelo meu cliente, Meritíssimo. É culpado, reitero, culpado!

AUDIÊNCIA (fazendo a ola): Ohhhhhhhhhhh!

PROMOTOR: O acidentado não tem condições físicas de ser testemunha, nem falar, esse indivíduo fala.

JUIZ: Testemunha aceita.

PROMOTOR: Protesto, Meritíssimo!

JUIZ: Protesto indeferido. E, por favor, senhor promotor, venha até a minha mesa.

O promotor caminha até o juiz, os dois confabulam em voz baixa, as mãos em concha sobre a boca.

JUIZ (sussurrando): Zequinha, preciso condenar uma pessoa hoje. Já estou há três semestres sem botar ninguém em cana. O pessoa do Supremo daqui a pouco estranha e me ferra.

PROMOTOR: Ah, não estava sabendo desse detalhe, sogrão. Foi mal…

JUIZ: E, aproveitando a pausa, levou meu neto pra vacinar ontem?

PROMOTOR: Opa, tá com a carteirinha em dia.

JUIZ: Então volta lá e deixa o advogado de defesa em paz.

O promotor concorda com a cabeça e retorna à sua cadeira.

JUIZ: Peço ao júri que, nesse momento, delibere sobre o caso. Na sala dos jurados há cerveja, vodca, drinques e salgadinhos. Sirvam-se à vontade.

Apagam-se as luzes. Pausa longa. Depois de alguns instantes, os membros do júri retornam ao tribunal. Todos com long necks e drinques nas mãos.

JUIZ: Os jurados já tomaram a decisão?

Um deles, com voz pastosa, fala:

JURADO: Ic, sim, dotô.

JUIZ: Qual é o veredito?

Os jurados começam a cantar e dançar ao som de “Atropelamento & Fuga”

JURADOS:

Automóveis, atropelamento e fuga!

Automóveis, atropelamento e fuga!

O juiz bate o martelo e diz:

JUIZ: Condenado!

Cai o pano.