Eu estava em Liverpool no meio da plateia do Cavern Club. Depois que os rapazes fecharam o show cantando ”Rock and Roll Music” vi John descendo do diminuto palco e vindo na minha direção. Fui com ele até uma das mesinhas, ao lado dos arcos da casa, e pedimos uma caneca de cerveja cada um. Ele deu um gole na sua, arrebitou o nariz romano e falou:

– Pete Best já deu. Queremos você na bateria da banda.

Já tinha ouvido falar dos Beatles, era vizinho de Paul e tocava batera há uns dois anos. Mas aquele convite, meio a queima-roupa, me deixou um pouco aturdido. John não notou minha insegurança e continou matraqueando, como se não houvesse ninguém a seu lado:

– George está na boa, Paul você já conhece. Demos um toque no Eppy e ele curtiu a mudança. É só você dizer que sim, passar no escritório e assinar o contrato com a Freda. É, estamos crescendo, cara, até secretária já temos…

Revelei a ele que tinha uma proposta de começar algo com os Moody Blues. John não curtiu.

– Conhece o Richie Starkey, aquele cheio de anéis? Se você prefere os Moody vai nessa. Eu proponho pro Eppy que venha o Starkey. Mas duvido que eles te paguem o que estamos recebendo aqui.

Dei um golão na minha Guiness e demonstrei interesse:

– Quanto?

– 12 mangos.

– Cada?

– Peraí, 12 mangos cada é pra quem toca no Empire, aqui é o Cavern Club, Carlos.

Não disse a ele, mas com o Moody Blues eu ia trabalhar no risco. Três mangos por show não era nada mal.

– Fechado, John! – disse e bati minha caneca na dele.

O beatle deu uma daquelas suas gargalhadas apopléticas e me abraçou. Depois fez uma ressalva:

– Precisamos só mudar o seu nome. Carlos Castelo não vai cair legal, é latino demais. Pensei em Chas Castle, o que acha?

Dois dias depois estava tocando com Paul, George e ele naquele palquinho bem atrás de nós. Foi um período de ouro, todo mundo sabe. O chato foram algumas tretas mais tarde – em especial depois que Eppy morreu e iniciou-se o período “Magic Mystery Tour.”

Tudo começou por causa de uma besteira. Paul queria ir no banco da frente do ônibus e eu, com meu problema crônico na lombar, sentei antes. Nas gravações já havíamos nos desentedido. Eu queria fazer fazer um solo de bongô de cinco minutos no meio de Your Mother Should Know. Ele vetou, puxou carteirinha de compositor e tive que recuar. George, já dando uma de Mahatma Gandhi, apoiou Macca e esfriei com ele também. John, depois que fez “I am the walrus” vivia chapado o dia todo e nem percebeu o enrosco.

Era muito evidente que o grupo caminhava para a desintegração. Apesar da decadência, uma noite em Londres, de repente, me vejo aos amassos com ela – a deusa Bardot. Foi muito rápido, ela me agarrou num inferninho e começou a passar a língua na minha boca.

Pena que durou tão pouco o sonho. Os Beatles, Chas Castle na bateria, BB – tudo foi o resultado de um porre no meu Réveillon, em Bertioga, ao som da nova playlist dos Fab 4 no Spotify.

Acordei no sofá, na maior ressaca, com minha gata Brigitte me lambendo a cara. Help!