(The Graphics Fairy)

Jesualdo está há 16 anos trabalhando no mesmo escritório. Começou como office-boy e foi subindo: escrevente-estagiário, escrevendo júnior, escrevente pleno, escrevente sênior, supervisor de escreventes e encarregado do Despacho.

No final do ano passado, Jesualdo completou 50 anos de idade. E, desde então, um fenômeno curioso vem acontecendo com ele durante o expediente: ele fica invisível. Sim, foi exatamente o que você leu. Jesualdo entra às oito da manhã e bate o ponto. A partir daí, até às 19 horas quando vai para casa, não é mais visto por  ninguém no trabalho. Jesualdo não é propriamente um funcionário que fica numa mesa de canto do salão, quietinho. Também não usa baia, nem tem sala própria.

O encarregado do Despacho precisa checar todos os documentos gerados por uma equipe enorme e assinar as autorizações para que eles possam deixar a empresa. Ou seja, Jesualdo circula pelo ambiente praticamente todo o dia. Ainda assim não o veem.

Na hora do almoço, desde sempre, senta-se na mesa mais central do refeitório. Alguns colegas já podem até estar sentados ali, mas continuam suas conversas sem notar a presença de Jesualdo. Mesmo que o encarregado do Despacho resolvesse comer bacalhau puxado ao alho e repolho cozido ninguém o perceberia.

Ao ir para o elevador sempre acontece a mesma coisa. Jesualdo precisa interromper o fechamento da porta com as mãos, já que os outros não notam que ele está querendo entrar e não a seguram.

Jesualdo é o mais velho da firma. O dono tem apenas 30 anos e os outros funcionários não mais do que 25, 26.

Por uns momentos, ele chegou a ponderar que a sua invisibilidade tivesse a ver com o fato de ser um cinquentão em meio a um grande número de jovens. Mas será? Num mundo corporativo tão preocupado em incorporar minorias, iriam ignorá-lo só por ser de meia idade? Provavelmente não, era preciso conter os tais pensamentos paranoicos que vinham com a madureza.

Acontece que os fatos passaram a bater com as encanações de Jesualdo. Numa manhã, chegando ao escritório, não encontrou mais a sua mesa. Nem os armários de aço com as cópias dos documentos que conferia e avalizava. Foi pelo corredor apressado tentar falar com o chefe-geral. Colegas passavam, ele lhes dava bom dia e não recebia nenhum tipo de cumprimento de volta – como já era de costume.

Ficou em pé em frente à porta aberta da sala do chefe-geral durante mais de meia hora. Esperava ele encerrar uma conversa com a diretora de produção para depois lhe falar sobre o desaparecimento do mobiliário. Só que a reunião terminou, os dois saíram do ambiente e, para variar, não o enxergaram.

Voltou ao salão, desconcertado. Como não tinha mais lugar para ficar sentou-se no chão, bem debaixo de um extintor de incêndio.

Está lá até hoje. Recebe os vencimentos, o FGTS, o ticket-refeição, tudo religiosamente todo dia 10.

E só uma ideia o consola: caso aconteça um incêndio, as chamas vão ser dizimadas sem que ninguém perceba.