Da série “Cronistas Patronos” de Crônica por quilo.

 

(Divulgação)

Há cronistas que não passo sem manter conversas literárias: Luis Fernando Verissimo, Sérgio Porto, Humberto Werneck, Moacyr Scliar, Antônio Maria, Ivan Lessa, Ivan Angelo. Esses nunca me escapam. Outros, no entanto, mesmo que não apareçam tão amiúde sob meus óculos, são presença constante. Na categoria incluo Otto Lara Resende, Lima Barreto e Paulo Mendes Campos.

Curiosamente, nunca fui do fã-clube de Rubem Braga. É claro que não nego suas iluminações no gênero, mas minhas predileções recaem mais por outros.

Fazia tempo que não lia nada do cronista Ivan Angelo. Ponho cronista, antes de seu nome, porque ele é muito conhecido, antes de tudo, por ser autor do festejado A Festa. As novidades na forma e o teor crítico do romance renderam ao escritor o Prêmio Jabuti, de 1976.

A poeta e crítica Ana Cristina Cesar (1952-1983) destacou à época, que a narrativa fragmentária de A Festa era semelhante à montagem cinematográfica e diferente do tradicional narrador onisciente: uma espécie de “cinematografização da literatura”.

Já Ivan Angelo, enquanto cronista, ganhou um público bem maior em 1999, quando foi convidado a escrever nas páginas da revista semanal Veja SP.

Numa troca de e-mails recente com Humberto Werneck, o escritor mencionou uma obra de Ivan que selecionara e prefaciara para a Global em sua coleção Melhores Crônicas.

Logo estava folheando a coletânea. Werneck tem razão quando afirma no prelúdio que “deliciosas no varejo do jornal e da revista, reunidas em livro as crônicas de Ivan Angelo ficam ainda melhores, umas trabalham pelas outras, todas ganham corpo, junto compõem uma exata combinação de sabores”.

É possível presenciar os diversos tons do autor no livro. O Ivan Angelo memorialista, o que escreve com a pena lírica do poeta urbano, a do cronista sempre alerta ao dia a dia. Sem esquecer também os textos de fino humor, em que ele retrata o cotidiano usando o microscópio da ironia e do sarcasmo.

Outra virtude de Ivan Angelo é o modo como maneja o complexo apetrecho chamado língua portuguesa. Não são todos os escribas que nos deixam a impressão, após a leitura de uma crônica, de que somente foram usadas – e tão bem aplicadas – as palavras necessárias para compor aquela aquarela escrita.

Para Ivan, a boa crônica é a que é feita “como se fosse escrita só para esse leitor”. Ou seja, onde há uma relação pessoal entre emissor e receptor.

Experimente ver, amigo leitor, se o efeito se dá com você. Mas já aviso, talvez não funcione. Cá entre nós, tenho impressão de que ele escreve só para mim.

Em tempo: a Faria e Silva Editora está lançando um novo livro de Ivan Angelo. Chama-se Sex Shop. Uma miscelânea de crônicas que o autor assinava na Playboy, três contos, um deles inédito, e poeminhas sacanas entremeando as prosas.