Um ferrenho agnóstico que, em determinados momentos, revela seu lado metafísico.

(Foto: http://www.diocesedeamparo.org.br/)

Somos seres complexos. Passo a maior parte do ano como um ferrenho agnóstico, mas, em determinados instantes, se insurge o meu lado metafísico. É quando me dirijo à Paróquia de São João Vianney, no bairro da Lapa, em São Paulo.

Apesar de ser um leitor contumaz da Bíblia, especialmente do Livro de Jó e de Tobias (excelentes textos dramáticos), nunca aprendi a rezar. O meu religare é de outra ordem; prefiro venerar o intangível.

E ali, em dois ou três quarteirões contíguos à praça Cornélia vive quase toda minha infância. As voltas de bicicleta em torno da praça, o grupo escolar, a velha lojinha de brinquedos, a casa de minha professora de piano Zulmira Franchini.

A graciosa igreja, em meus tempos de guri, era comandada por monsenhor Moura, um velhinho gordo, bonachão que oficiou minha primeira – e quase única – comunhão. Foi em 1968, ano que ainda não terminou – pelo menos em minha memória capenga.

Volto ao cenário. A praça permanece igual, a igreja nada mudou. Lá está a imagem de São João Vianney. Num dos altares laterais também estão velhos conhecidos: São Judas Tadeu, Santa Teresinha do Menino Jesus (de quem minha mãe é fervorosa devota). O curioso é que os santos parecem bem menores do que quando eu usava calças curtas. Mas me são incrivelmente familiares.

Fico ali, naquela penumbra religiosa-uterina, só me retirando depois de colocar uma quantia numa urna onde lê-se: “DÍZIMOS”.

Ao sair na pracinha repleta de mendigos e catadores de lixo, pego um táxi. Uma mulher já bem idosa o dirige.

Ela tem mãos enormes, calejadas e um sorriso otimista. Pergunto-lhe desde quando mantém ponto na região.

– Desde 2007 – ela diz, amarrando o cinto de segurança.

Digo-lhe que passei a infância ali. Ela inicia o estupro em meus anos dourados.

– Essa praça só tem maconheiro, moço. Maconheiro, ladrão e cabra safados. Se o senhor passa de noite é uma catinga de erva lascada. Os caras que puxaram cana, acabam de sair da cela, já vem tudo pra essa igreja aí.

– Pra fazer o quê? – quero saber.

– Negócio de reciclar lata pra enfeite. O padre paga os malandros pra trabalhar nisso.

– Mas não é um jeito – pondero – de tirar o pessoal do crime?

A motorista dá um sorriso irônico e completa:

– Faz é piorar, seu moço. O padre deu dinheiro prum ex-detento novato que apareceu. E sabe o que ele fez? Pois eu lhe digo. Roubou uma peixeira do boteco, pagou uma corrida prum colega meu e lá em Parada de Taipas surrupiou ele.

O carro me deixa em casa. A motorista se despede com animação. E a imagem que eu tinha da praça, da infância e do Brasil, nunca mais serão as mesmas.