Férias oftalmológicas.

hugoboss

(Foto: Carlos Castelo)

Quando se fala em férias, a primeira coisa que a maioria das pessoas normais pensa é em viagens, praias paradisíacas e drinks com guarda-chuvinhas à beira da piscina. Depois dos 40, tudo muda.

Eu, por exemplo, aproveitei o recesso anual para fazer uma consulta oftalmológica. Fazia um bom tempo que não promovia uma revisão ocular. Por comodidade optei por uma clínica próxima de casa.

Preciso admitir: a escolha não foi muito feliz. A doutora em questão me pareceu deveras preocupada ao examinar minhas jabuticabas, foi logo aviando um catatau de exames clínicos. Depois de passar por colírios que mais pareciam pimenta malagueta e olhar por visores de máquinas estrambóticas, veio o veredito:

– O senhor pode estar perdendo a visão. Precisamos realizar mais algumas averiguações…

É claro que entrei em pânico. Ao sair da consulta já achei que estava ficando com alguma deficiência visual grave, mas era a pupila dilatada. Busquei me consolar mais tarde lembrando que Homero e Joyce não enxergavam lá muito bem, mas não suportava a ideia de abandonar meu Kindle pela leitura braille.
Liguei para amigos e familiares à noite, contei-lhes o dramático fato e me indicaram um megaespecialista nas vistas. Novos exames, novos colírios ainda mais picantes e o diagnóstico chegou:

– O senhor só tem um problema na visão: enxerga 30% a mais que a média da população brasileira. Pode ir sossegado, nem águia vê tanto assim.

Mais aliviado fui buscar meus óculos com lentes novas. Ansioso para enxergar novamente em 3D acabei chegando 15 minutos antes da hora aprazada. Sentei-me num sofá de courvin preto, serviram-me café, bolachinha. Estendi as pernas e, por fim, relaxei.

Eis que entra um árabe na loja. Só que era um árabe ortodoxo, trajado quase como um beduíno. Ele fica ali, no meio da loja, olhando as prateleiras com um jeito meio desconfiado. Vem a mocinha do balcão.

– Posso ajudar o senhor?

O sírio-afegão-líbio-whatever diz:

– Non fala Português.

E começa a experimentar as armações. A mocinha vem para meu lado. Pega o celular, vira de costas para o exótico cliente, e liga para a proprietária da ótica.

– Dona Vera, tem um moço estranho aqui. Parece aqueles Bin Laden, sabe? E diz que não fala Português. Isso. Tá vendo os óculos aqui. É. Estranho, sim.

Baixam os seguranças.

– Patrão, vai comprar óculos?

– Non fala Português.

– Então quer o quê aqui?

– Non fala Português.

– Se não fala, como é que vai comprar, mano?

– Just look around – responde o beduíno.

O segurança liga o rádio:

– Tá na escuta, Vilson? Chama a Rota que tem um terrorista na loja da dona Vera.

Quando vi que a coisa ia embaçar mais que meu astigmatismo, me levantei do sofá e falei ao carcamano:

– Hey, what can I do for you?

– Sunglasses! – alegrou-se ele – where can I find sunglasses, please?

Dispensaram a guarda e Faissal adquiriu um Wayfarer, da Ray-Ban.

Tem ótica que não se enxerga.