Uma ideia que não é perigosa não merece ser chamada de ideia. (Oscar Wilde)

(Gordon Johnson por Pixabay)

 

§ Teve o Caramuru. Tacou pólvora em cima da indiarada, e a indiarada passou a cultuá-lo como deus da mitologia tupi-guarani. Dom João VI pregando a Terra de Santa Cruz na cruz – e a galera fazendo de conta que o rei não estava nu, nem que Napoleão estava bem atrás dele. Deodoros, Florianos, Venceslaus, Epitácios escrevendo o epitáfio da nação, e os mortos lá, ovacionando com a boca cheia de dentes. Na ditadura militar, Pelé e Roberto Carlos, sentados na mesma tribuna dos algozes, representavam a massa que, pisoteada, ainda os aplaudia. Não há dúvida, o Brasil sofre de síndrome de Estocolmo desde o nascedouro.

 

§ É um país onde só se fala em atraso. Desde que nasci, ouço a mesma velha ladainha: “nós estamos em último lugar na fila dos que nem chegaram”. Há, todavia, uma evolução entre nós. Sejamos justos – passar da máscara de queixo à máscara de orelha, num período tão curto, é algo que só uma civilização com alta capacidade de resistência poderia criar. Orgulho.

§ Adorava aquele “l’œuf à la coque” nas tardes, especialmente porque era no porta-ovos antiguinho da avó. Dia desses fui preparar um e quebrei o objeto de porcelana. Nas coisas estamos nós, atrelados feito bois à canga. Foi de doer ver os caquinhos espalhados pelo chão. Passaram-se semanas e vi a filha, colherzinha à mão, tomando o seu ovo quente no mesmo utensílio ancestral. Era um par, me explicou ela. Sorri por dentro e conclui: com avó, o filho da mãe tem sempre uma segunda chance. Até quando a ascendente já ascendeu.

§ Primeiro, tentei ser nostálgico. O mundo do presente com suas obviedades, não era mais pra mim. Só me restava louvar o passado glorioso. Contudo, ser passadista, sei lá, é uma coisa tão antiga, melhor buscar outra embocadura na vida. Comecei a mirar o futuro. Não vou dizer que não seja atraente, o chato é a ditadura de só criar coisas que ninguém ainda entende. Dá uma solidão, meio como viver numa pandemia eterna. Foi quando decidi retornar ao presente. Não como antes, porém. Não tenho mais tempo de ser temporal.

§ Realmente, parece haver, cada vez mais, uma certeza sobre o apedeutismo reinante no Planalto. Tem quem creia que, por causa dessa ignorância – somada à falta de apoios e partido – teremos em 2021 surpresas ainda mais desagradáveis. Fatos inesperados para tapar o sol com a asneira. Algo como aquela do generalíssimo Galtieri, da vizinha Argentina, invadindo as Malvinas e, na sequência, tomando nas Falklands. Em função disso, não nos espantemos se, na campanha de vacinação, em março, a prioridade for para os mortos.