Evito a primeira pessoa do singular. Comigo é tudo na base do nós.

(Pixabay)

Quando escrevo, nunca falo de mim. Sei que o uso do “eu” é aceitável. Não só em textos ligeiros como este para um jornal, como nos mais densos solilóquios shakespeareanos. Mas é frívolo. Posso dar o meu exemplo. Sou redator publicitário. Ganhei todos os principais prêmios do setor. Troféus nacionais e internacionais. Nas entregas das premiações ceei com reis, princesas, astros de Hollywood, grandes roteiristas de Hollywood. Até o papa tomou uns Malbec comigo. Foi quando convenci o argentino a fazer um comercial de arrecadação de fundos para o time dele, o San Lorenzo. Bom ator o pontífice, inclusive. Meio canastrão, mas resolve bem.

Com o dinheiro recebido pelas minhas criações, comprei a cobertura na Vila Nova Conceição, a fazenda de Casa Branca (Malhadinha), o haras de Buri, os cavalos puro-sangue, e o loft de Saint-Germain-des-Prés. Vou ficar falando que possuo um patrimônio X ou Y? Para quê?  Privacidade é vida.

Estava até comentando algo na linha com um amigo recentemente. Disse a ele: “olha, Spielberg, a vida é um sopro – é preciso ser simples”. Ele, que é total workaholic, me deu toda razão. Na hora mandou uma mensagem de áudio ao Scorcese. Fecharam ali mesmo um documentário sobre o que eu falara a respeito do despojamento. Queriam que eu dirigisse o filme, mas não era a minha praia, sou das teclas pretinhas. Só fiz questão que o narrador fosse o Morgan Freeman. O resto ficou com eles.

Agora, pensem num ególatra que tivesse passado por 1% da minha experiência. Já haveria até e-book contando tudo, redes sociais entupidas de posts.

Eu não. Sou modesto. Evito a primeira pessoa do singular. Comigo é tudo na base do nós. Nós somos o publicitário mais premiado da América Latina. Nós somos self-made-man. Nós temos talento, o resto têm inveja. E por aí vai.

Pouca gente sabe que, quando começaram os talk-shows no Brasil, a emissora que lançou o primeiro programa estava entre mim e o Jô. Sempre fui bom de apresentar campanhas, os donos do canal achavam que eu seria um sucesso como entrevistador. Fora que falo sete idiomas e nove dialetos.

O Jô pediu um valor menor, eu não abri mão do meu cachê. Quer audiência, pague pela competência. Ficaram com o gordo, pior para o público.

Lembro do Boni me ligando naquele dia. Estava uma pistola. “Cara, você vai perder a chance de estrear o talk-show na TV brasileira?”.

Ele não sabia da missa a metade. O pessoal de Hollywood – que tinha me conhecido nos festivais de Propaganda, em Cannes – queria que eu fizesse o 007. Havia uma insatisfação com o Pierce Brosnan. Falei para o produtor que a minha atuação como ator seria inferior a dele. Até porque não estudei teatro, cinema. Fiz Direito, em Harvard. Mas, para minha surpresa, não era bem esse o babado. Eles estavam atrás de um sujeito mais bonito, mais bem apessoado que o Brosnan. No próximo filme da série, a Julia Roberts ficava doidamente apaixonada pelo agente secreto. Então, não podia ser qualquer um. Na hora me bateu um orgulhozinho bobo. Passou logo. Afinal, nem era a minha praia, sou das teclas pretinhas.

De mais a mais, coerência é tudo nesse sopro que é a vida: nasci humilde, vou morrer modesto.