Heródoto deve andar corado de vergonha alheia.

Foto: Carlos Castelo

 

Nunca neguei a História. Já a Matemática, a Física e a Química não só neguei, como não assistia às aulas.

Hoje, infelizmente, o que vale são as versões. Virou tendência desmentir o que está nos livros mais confiáveis. O que é bem estranho.

Afinal, ninguém prefere a versão Galeria Pagé de um tênis Nike, prefere o original. Ou alguém já presenciou um diálogo assim entre uma mãe e o filho adolescente?

–  Pepê, leva esse Nike Air Max abóbora, é lindo!

– Acho que não, mãe…

– Prefere o Adidas Extra Power? O roxo é chocante, hein?

– Não, vou querer aquele xinguelingue da Puma. É feião, mas bem mais barato…

Paradoxalmente, o fenômeno cresceu tanto que agora alguns deram para afirmar, com todas as letras, coisas que fariam até Heródoto corar de vergonha alheia.

Um exemplo? Não teve ditadura militar no Brasil de 1964 a 1985.

Bom, então podemos considerar Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo presidentes fantasmas? Aqueles tiranos que apareciam na TV nas paradas de 7 de setembro eram holografias?

Em 2019 até poderia-se aventar uma hipótese maluca assim. Mas, nos anos 1970-80, nem a Rede Globo teria tecnologia pra criar um efeito especial desses. Era no máximo uma Dona Redonda explodindo na novela Saramandaia (a de 1976) e olhe lá.

Outra evidência da presença da ditadura militar eram as aulas de Educação Moral e Cívica. Se realmente houvesse liberdade no país, o aluno poderia optar pela cadeira de Educação Sexual. Pela cadeira, a cama e até o pufe, caso fossem essas as suas preferências. Mas não. Para a ditadura era Educação Moral e Cívica e fim de papo. E má notícia: quem não tivesse média sete na matéria bombava.

Lembro-me que nosso professor era um delegado. Dizia-se, aos sussurros durante o recreio, que se um aluno fosse mandado embora da sua aula, não ia para a diretoria, ia para o DOPS.

Nunca vou me esquecer do Tavinho, da 8ª B, numa prova oral. Errou o primeiro nome do comandante do II Exército e o delegado sapecou-lhe um almanaque do Tio Patinhas na testa.

Tempos de chumbo que agora querem simplesmente transformar em tempos de algodão.

Infelizmente, o imbróglio não para por aí. Tem ainda a questão do nazismo de esquerda. O que, de cara, nos faz perguntar: se o nacional socialismo alemão foi realmente esquerdista, o Zé de Abreu seria o Viktor Orbán brasileiro e o Bolsonaro, o Kim Jong-un?

Mais: considerando-se Hitler um bolchevique, e como o Führer só tinha um testículo, teria dividido as bolas com as massas para dar exemplo de camarada solidário?

São muitas perguntas e pouquíssimas respostas.

À luz da pós-verdade, tem gente que defende que o criador do nazismo foi Stálin. Sem dúvida alguma, uma declaração impactante. É mais ou menos como se afirmassem que a bossa nova foi um movimento musical inventado pelo Nelson Ned.

Parece inacreditável que, 50 anos depois da caminhada do homem na Lua, ainda creia-se que a Terra é plana. Ou que a escala Pantone só deveria ter duas cores: rosa e azul.

Em nome do combate ao marxismo cultural infelizmente estão promovendo um genocídio intelectual. O horror! O horror!

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