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(Foto: Carlos Castelo)

Uma pessoa que tem o sobrenome Castelo Branco, de cara, já é cismado com avião. Não sou exceção.

O primeiro voo que fiz não ajudou muito a melhorar minha fobia. Foi quando eu tinha 12 anos. Saímos de Congonhas, rumo a Salvador, num Caravelle.

No meio do caminho, o jato francês pegou um enorme vácuo e despencou mais de 100 metros. Meu jovem cérebro pareceu, por alguns instantes, que sairia pelo reto.

Apesar da pouca idade, durante a queda, revi meus curtos 144 meses de vida: do parto em Teresina aos desenhos do Pica-Pau e Jonny Quest.

Assim que a aeronave estabilizou no ar formou-se uma enorme fila no corredor. Dezenas de pessoas de todos os tipos seguravam sacos de vômito aguardando sua vez de se higienizar (isto foi um eufemismo para algumas palavras que evitarei aqui).

Quando consegui saber onde estava passei a observar as adjacências. Notei numa das cadeira à frente de mim um senhor de terno cinza. Curiosamente, apesar de todo o caos pelo qual havíamos passado, ele continuava sentado, lendo com toda calma a mesma página de seu Estadão. Exatamente a mesma em que estava quando ocorreu a hecatombe aérea.

Depois de alguns minutos, quando o corredor já estava mais vazio, esse senhor dobrou o jornal, posicionou-o sobre o assento, pegou a maleta 007 e dirigiu-se elegantemente até o toalete.

Ficou por lá uns bons dez minutos.

Havia algo de estranho naquela demora tão prolongada. Por isso fiquei ligado na porta do banheiro, aguardando o retorno do irretocável executivo ao seu lugar.

Em instantes, a porta se abriu e ele veio. Com a mesma maleta em punho, a mesma camisa branca de algodão egípcio, o mesmo paletó cinza. Só a calça do terno era outra, uma azul marinho.

DORIVAL

Um dia, os TI’s farão parte da tripulação dos grandes jatos comerciais….
– Estou tentando virar pra direita e parece que não tá respondendo.

–  Chamo o Dorival?

– Acho que é o jeito, né? Senão vamos dar de nariz no Santos Dumont.

– Vou lá.

– Tá, não demora…

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– Fala, Dorival, a aeronave não quer endireitar. Estamos voando em círculos.

– Posso dar uma olhada no computador aí?

– Afirmativo, pega o meu assento.

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– E aí, Dori, daqui a pouco é o pouso. Consertou?

– Tentei um reboot aí, mas deu pau.

– Não tem uma outra maneira de fazer ele restartar?

– Eu precisaria tirar o computador do painel e levar pra oficina.

– A gente teria que pousar antes, não?

– É, mas ele não vai pousar agora não…

– Como assim, não vai pousar?

– A configuração do Windows tá dando interferência no sistema operacional.

– E aí?

– Aí que só funciona o Facebook no computador. O resto não roda.

– Aterrissagem no manual, vamos lá!

– Era isso que eu ia te dizer. Operação no manual ele não vai permitir, viu?

– Não?

– É o que sempre falo. Não pode ficar mandando as máquinas pra fazer manutenção fora de autorizada.

– Putz, mas e agora, Dorival?

– Tem um celular aí? Vou ter que ligar pro Suporte

– Suporte?

– É, enquanto eu ligo vocês colocam filminho, servem coquetel pro pessoal. Porque vai demorar. Suporte de quinta-feira é osso, vive congestionado.