Reflexões de fim de ano.

(Foto: Carlos Castelo)

 

A senhora miúda sentada no sofá, com um sorriso maior do que ela, é minha mãe. Não nos víamos há 11 meses.

Eu acabara de viajar 307 quilômetros para almoçar em sua companhia. Antes de irmos para a mesa, ela abraçou-se querendo dizer que, com o gesto, me abraçava também. Notei como havia se arrumado para mim. Trajava um conjunto de saia e blusa em fina juta, um colar de contas, brincos dourados. A maquiagem leve, que sempre usou, também marcava presença. Isso mostrava o quanto o momento era importante. Comemos a uma distância segura e depois ficamos recordando, de longe, coisas engraçadas do passado.

Pedi que ela sentasse numa cadeira na varanda da casa. Escolhi um fundo neutro e fiz uma longa série de portraits com a minha câmera. Ela sempre adorou ser clicada, meu pai foi seu primeiro fotógrafo. Pedi mais um café e anunciei que precisava voltar. Era mais seguro para todos. Ela sempre insiste para que eu fique mais tempo. Dessa vez aceitou, resignada. “Visita de médico, mãe” – eu disse.

Ao entrar na Via Anhanguera começou a chover. Só depois percebi que não era chuva, eram meus olhos. Enxuguei-os com a manga da camisa e segui em frente. Não havia outra alternativa.

 

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Pensei no começo do ano. Pareciam ser mais 365 dias e pronto. Só que não. O primeiro caso de Covid-19 com morte, ali pelos meados de março. Pensei na mudança do escritório para o home office. A dificuldade com as novas ferramentas, as lives. Pensei no filho estudando no exterior e a necessidade de trazê-lo de volta o mais rápido possível. Pensei que a economia não aguentaria o baque e explodiria. Pensei na impossibilidade de festejar o aniversário de 90 anos da minha mãe. Pensei em me mudar para o interior. Pensei na tristeza da filha por não poder mais brincar com as amigas. Pensei estar infectado. Pensei que não aguentaria o isolamento. Pensei em lançar um disco, um livro, logo mudei de ideia. Era melhor esperar a coisa se aprumar e planejar melhor. Pensei que a coisa ia se ajeitar, vieram as novas cepas. Pensei na existência de uma vacina, a imunização passou a ser realidade, mas não aqui. Pensei em tanta coisa. Até na morte da bezerra. Até em fazer uma grande besteira. É, pensei em fazer pão gourmet. Mas se eu virasse um padeiro artesanal, com ‘know-how’, seria uma rima, não seria uma solução.