E se Guimarães Rosa estivesse vivo e escrevesse um livro sobre o bairro paulistano? Confira um trecho da obra.

” – Nonada! Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. É essa madrugança nas bodegas da Tabapuã que hoje anda diabralmente desproposital, doutor.

O lugar é muito diverso. Tem rapazinho macachá, tem madrasto, mulher a tiracol com mulher, doido rosneando pelos becos.
Eh, canto do Capiroto esse Itaim!
Se esmeirinhar acha de tudo. Só quem dá com os burros em coisa nenhuma é a cavalama da soldadesca que olha, olha e enxerga nonada de nada.

A cabroeira aqui faz o que entender, doutor. E não tem curimbaba que dê jeito, nem rebimbando o povo.

O doutor precisava de ver quando cai o rio do céu,  a ajuntação de água que faz. Fica semelho a um diluviozim. Os carros – que jogam aquele fumacê que dá até carregação-nos-olhos dos intainhenses – ficam boiando, emborcados, que nem ariranhas; as onças d’água, não sabe?

E os governos é só com requifife. É por isso que, entre a Pedroso e a Joaquim Floriano, é o puro escabro.

Num desanoitecer, Leite-de-Sapo e eu nos abancamos a fim de fazer reclamo junto à sub-municipalidade de Pinheiros. Custou saber adonde onde era o estabelecimento. O fiscal, desgarrou do sete-belo, e veio deliberar, serioso.

Ele disse: É qual quê é o assunto?

Eu disse: Os Itains e as margens dele.

Ele disse: É questão de imposto?

Leite-de-Sapo disse: Não, é questão de senvergonhagem.

Ele disse: Severgonhice é no outro guichê.

Ouvi e não cri.

O fiscal ao lado devia estar na vagagem; seu soto-fiscal tinha ido fazer o rancho. Nesse entrequanto, assentamos na calçada, toda despertencida feito as do Itaim, pitamos e demos uns assoviamzinhos. Veio o lusfús, o cujo não vinha. Entrou o lãolãolão dos sinos dando sete horas da noite e coisa nenhuma. Choveu, dechoveu, nadinha.

Às oito e pouca passou um arrastão da canalhagem, muito armada e, cristo-jesus, berraram para nós:

– Homem, te vira de costas!

No assim simples, Leite-de-Sapo e eu obedecemos. Entregamos os trens todos nossos, de belprazer, e cruzcruzamos a Faria Lima de volta ao bairro.

Pois bom, amável o doutor me ouviu, minha ideia confirmou: que a ordem não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. A ordem, no bibi, não há. É o que eu digo, se for…Existe é uma ordem desordeira. Travessia.”